Primeira semana de um longo processo para assumir que juntos iremos mais longe

A sinodalidade é a melhor expressão da universalidade da Igreja, da catolicidade, dessa sinfonia da diversidade que o Papa Francisco quer que seja tocada pela orquestra eclesial. Muitos não reconhecem essa melodia, quase sempre por razões ideológicas, um perigo contra o qual o pontífice adverte constantemente, que domina a mente e rompe a comunhão, tornando cada vez mais difícil a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, que alguns confundem com sua própria maneira de entender Deus, muitas vezes um deus particular, à sua própria imagem e semelhança.

Deus como ponto de partida

Uma semana após o início da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, uma primeira avaliação já pode ser feita. Devemos ter claro que o ponto de partida deve ser sempre Deus, Sua Palavra, daí a importância de estarmos diante dela, especialmente quando buscamos encontrar o caminho para sermos Igreja em qualquer época da história. A oração, a verdadeira oração, que nos leva a um encontro pessoal e comunitário com Deus, é a luz que deve guiar a caminhada da Igreja, fundada por Jesus Cristo e desafiada a ser um sinal de sua presença.

Quando se está diante de Deus, reconhece-se a própria pequenez, os próprios pecados, algo que não é apenas pessoal, mas também comunitário, eclesial, estrutural. Somente tendo consciência dos pecados cometidos, e nisso Francisco é um verdadeiro testemunho de coragem, é que se pode crescer. Reconhecer os abusos na Igreja, denunciar a indiferença para com os descartados, os migrantes, as vítimas da guerra e da mudança climática, muitas vezes custa caro, mesmo para aqueles que à frente do catolicismo. Essas situações são provocadas pelos poderosos e, quando alguém coloca o dedo na ferida, paga as consequências.

A comunhão como um princípio inegociável

Em uma Igreja que vive a comunhão, e isso deveria ser um princípio inegociável, é inaceitável querer definir a agenda, já existem aqueles que querem definir a agenda até mesmo para o próprio Papa. Somente quando entendemos que juntos somos mais e que, para isso, precisamos escutar, dialogar e discernir em comunidade, é que aprendemos o que significa ser Igreja. Se eu não estiver disposto a sacrificar o que é meu, nunca nascerá algo novo, o plano de Deus nunca se tornará realidade.

O processo sinodal pelo qual estamos passando como Igreja é um desafio para darmos passos em uma direção comum, sem medo, mas movidos por um espírito de unidade na diversidade. É tão perigoso cada um caminhar como bem entender quanto tentar estabelecer uma Igreja de clones, tentação presente naqueles que têm a ideologia como norte. A Igreja sinodal não poderia ter um inimigo maior do que esse.

Não vamos continuar alimentando o ódio

A partir desses primeiros dias de caminhada, na verdade a continuação de um longo processo, talvez a maior intensidade e atenção da mídia façam da Assembleia Sinodal um momento diferente, vale destacar alguns elementos já apontados na Primeira Sessão, como a atenção ao mundo virtual e a presença da Igreja nele, não olhar as mulheres de cima para baixo, não continuar a considerá-las inferiores e negar-lhes presença em áreas para as quais são mais do que capazes.

Que ninguém, em nenhum dos lados das trincheiras ideológicas, pense que, com esse processo sinodal, a estrutura eclesial vai se transformar completamente, não reduzamos a sinodalidade a uma técnica, entendamos que é um estilo que exige escuta e conversão, não tentemos perpetuar um clericalismo que deve ser coisa do passado, pois impede a acolhida de todos e a livre atenção. Em um mundo dividido pela guerra, não sejamos como aqueles que alimentam o ódio, porque mesmo na Igreja as consequências são sempre dramáticas.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Mês Missionário: Ide, convidai a todos para o banquete

“A Igreja peregrina é, por natureza missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho e do Espírito Santo” (cf. AG 2). A diversidade de dons, à Ela concedida, brota do seio da Trindade, e fortalece a sua identidade missionária. Com a força do Espírito, a Igreja é conduzida à unidade.

O mês de outubro, desde 1926, é tradicionalmente celebrado pela Igreja como mês missionário. O Papa Pio XI, instituiu essa data com o objetivo de incentivar a oração pelas missões e de promover uma coleta em favor da evangelização dos povos. Essa iniciativa é inspirada no mandato de Jesus para anunciar o Evangelho a todas as nações (cf. Mt 16,15).

Com isto, não estou afirmando que nos outros meses do ano não se fale de missão; se fala sim, pois a missão é a identidade da Igreja. Mas este é um mês de campanha missionária, ou seja, período em que se intensificam as iniciativas de animação e orações em prol das missões em todo o mundo. O tema deste ano, “Com a força do Espírito, testemunhas de Cristo”, nos chama a refletir sobre o agir central do Espírito Santo na vida missionária da Igreja e a nossa vocação de ser testemunhas vivas do Evangelho de Jesus Cristo no mundo. Nos desperta o compromisso de ser luz e esperança em meio às diversas realidades.

O lema bíblico, inspirado na mensagem de Jesus, “Ide, convidai a todos para o banquete!” (Mt 22,9), foi o tema da carta do Papa Francisco, para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2024. Em sua carta, Franscisco destaca três pontos importantíssimos: O “ide e convidai” – mostrando uma Igreja que envia e que acolhe. No segundo ponto o Papa desenvolve a dimensão escatológica do “banquete” – eucaristia, a missão de Cristo e da Igreja. O terceiro, diz respeito a Igreja toda sinodal missionária, quando se refere ao termo – “convidai a todos”. Com isto, o Papa traz presente em sua reflexão, a segunda fase do sínodo sobre a sinodalidade, vivenciada neste mês de outubro.

Assim, motivados por este tema e lema, como bispo referencial da missão em nosso Regional Norte 1, convido todas as Igrejas Locais do referido Regional, para vivermos missionariamente este mês de outubro, que começou com a comemoração de Santa Teresinha do Menino Jesus, que é reconhecida pela Igreja, como a padroeira das missões. Ela nos ensina que a primeira atitude do missionário(a) deve ser a mansidão. O anúncio da Boa Nova é um anúncio de paz, que leva aos mais necessitados a misericórdia que vem do Senhor. 

E enquanto, Arquidiocese, Dioceses e Prelazias, devemos sensibilizar e despertar a consciência missionária dos batizados(as), ajudando-os(as) a perceber que todos somos responsáveis pelo trabalho do Reino. “O Mês das Missões deve lembrar a cada um de nós, que é missão de todo batizado ser evangelizador. Não é cristão de verdade quem não fala de Cristo e da Igreja. O Batismo nos faz “membros do Corpo de Cristo”, a Igreja, e assim, participantes de sua Missão de salvar o mundo, levando-o para Deus, por meio da vivência dos ensinamentos de Jesus.”

O Conselho Missionário Regional – COMIRE, procura organizar e realizar a animação, formação e cooperação missionária em todos os níveis eclesiais do Regional. Animar e ajudar as Igrejas Particulares na formação, a ponto de se criar uma mentalidade de sua vocação missionária. O COMIRE, se coloca à disposição, para vivermos a sinodalidade numa Igreja toda ministerial, de comunhão, participação e missão.

 Ao concluir esta mensagem, gostaria de lembrar sobre a Coleta do Dia Mundial das Missões. Vamos motivar em todas as celebrações durante os três primeiros domingos do mês missionário, para que a coleta em nosso Regional, seja generosa! Maria, que participou do primeiro milagre de Jesus, devolvendo a alegria do banquete das núpcias, em Caná da Galileia (Jo 2, 1-12), mantenha em nosso Regional a alegria do Evangelho.

José Altevir da Silva, CSSp, bispo da Prelazia de Tefé e referencial da Missão no Regional Norte1

Comissão para a Vida e a Família da CNBB publica “Nota sobre o Dia do Nascituro”, dia 8 de outubro

A Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por ocasião do Dia do Nascituro, que é lembrado hoje, 8 de outubro, publicou na na ultima sexta-feira, 4 de outubro, uma “Nota sobre o Dia do Nascituro”, na qual reafirma o compromisso na defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural.

Publicada no contexto da Semana Nacional da Vida 2024, que neste ano, tem como tema: “Idosos, memória viva da nossa história” e o lema “Na velhice darão frutos” (Salmos 92, 15), a nota pede que os católicos voltem “novamente o olhar cuidadoso para aqueles que ainda não nasceram, celebramos e renovamos nosso compromisso com a cultura da vida, inspirada no Evangelho de Jesus Cristo, em todas as etapas, como nos recorda o Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, “Um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em qualquer situação e em cada etapa do seu desenvolvimento”.

O documento estimula ainda a realização de ações nas comunidades católicas para marcar esta data,  como o gesto concreto “Sinal da Esperança”. “No dia 08 de outubro, façamos em um gesto de propagação da ‘Luz de Cristo’ para poder iluminar e proteger as vidas vulneráveis e indefesas”. A nota convida a ascender o maior número de velas e a rezar juntos a ‘Oração do Nascituro’, como um momento de devoção e unidade.

Veja a íntegra do documento:
Nota sobre o Dia do Nascituro

Cardeal Gracias: “Dar valor a todas as culturas, respeitá-las, caso contrário estaríamos indo contra a corrente”

As relações são um dos elementos presentes nas discussões da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada na Sala Paulo VI de 2 a 27 de outubro de 2024. Esse tema está muito presente na vida da Igreja Católica na Ásia, como afirmou o Cardeal Oswald Gracias, Arcebispo de Bombay e Presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas.

Trabalhando juntos como religiões, buscando Deus

Para o cardeal indiano, na Ásia, “as relações com outras religiões são muito importantes, nós as definimos como religiões próximas, temos que trabalhar juntos, buscando Deus, buscando um elo entre nós”. Uma atitude que também está presente em outras latitudes, como na Amazônia, onde o Sínodo para a Amazônia, que realizou sua Assembleia Sinodal em outubro de 2019, da qual participou o arcebispo de Bombay, fortaleceu essa dinâmica, avançando em alguns elementos concretos, como o rito amazônico.

A esse respeito, o cardeal Gracias lembrou que, na Ásia, os católicos representam quatro por cento, com países onde constituem um por cento, sendo as Filipinas uma exceção a esse respeito, com um número maior de católicos. A partir daí, ele disse que “o Sínodo deve ter um efeito sobre a transformação das igrejas cristãs no mundo”, insistindo na ideia de “poder trabalhar juntos, para avançar juntos”. Falando sobre participação, ele observou que “é aqui que a interculturalidade entra em jogo, e devemos respeitar outras culturas”.

A necessidade de aceitar, respeitar e compreender

O Cardeal Gracias lembrou que “depois do Concílio Vaticano II, percebemos muito melhor o valor, a necessidade de aceitar, respeitar e ser capaz de compreender os outros”. Nessa perspectiva, ele enfatizou que “a inculturação da fé também deve ser diferente”, destacando que “há uma enorme riqueza na Ásia, na Índia, na Coreia, no Japão, em todos esses países, as culturas locais nos ajudarão. Não queremos converter os outros, mas temos que construir o Reino de Deus na Ásia, temos que assumir o valor da Ásia como algo necessário”.

“Por natureza, somos sinodais na Índia, na Ásia”, uma região onde “a cultura é totalmente diferente, eles não entenderiam outra cultura se ela lhes fosse imposta’. Lembrando o que diz o Vaticano II, o cardeal disse que “devemos valorizar todas as culturas, respeitá-las, aproveitar a riqueza dessas culturas, porque senão estaríamos indo contra a corrente, estaríamos indo contra a encarnação, este é um exemplo típico de inculturação”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Assembleia Sinodal: “A sinodalidade é o modus vivendi de uma Igreja que vive em missão”

No dia em que a Assembleia Sinodal deu mais um passo à frente, com o início do trabalho em um novo módulo dos quatro em que está dividido o Instrumentum laboris, o das relações, a Sala Stampa sediou uma nova coletiva de imprensa com os membros da Assembleia Sinodal, neste caso o Arcebispo de Bombay, Cardeal Oswald Gracias, Dom Gintaras Grusas, Arcebispo de Vilnius e Ir. Mary Teresa Barron. A eles se juntaram os membros presentes cada dia: Paolo Ruffini, Sheila Pires e Cristiane Murray.

Oração e solidariedade com o Oriente Médio

Do que aconteceu na Congregação Geral na segunda-feira, Ruffini destacou o momento de oração e solidariedade com os povos do Oriente Médio no Dia de Oração e Jejum, convocado pelo Papa Francisco para 7 de outubro, buscando o que nos une pela Paz. Da mesma forma, afirmando que a caridade, a proximidade e a sinodalidade estão ligadas, ele relatou a coleta de esmolas para a paróquia de Gaza, sempre presente entre as preocupações do Papa. Também recordou a presença na Assembleia Sinodal de 9 dos cardeais nomeados pelo Papa, e as palavras de Madre Maria Ignacia Angelini, que pediu uma conversão das relações para passar de um modelo piramidal a um modelo sinodal.

O novo módulo significou uma mudança de membros nos círculos menores, nas mesas redondas, que elegem o relator, o secretário é previamente escolhido pela Secretaria do Sínodo, lembrou Sheila Pires, relatores e secretários que realizam um trabalho amplo e importante. O trabalho começa com a apresentação dos membros, que depois apresentam sua reflexão, preparada com antecedência, que dá lugar à conversa no Espírito.

Nesta terça-feira, informou a secretária da Comissão de Informação, serão eleitos os membros da Comissão para a redação do Documento Final. Junto com isso, depois de explicar o desenvolvimento do trabalho, ela se referiu aos fóruns teológicos que serão realizados na quarta-feira à tarde, onde se refletirá sobre o Povo de Deus como sujeito da missão e o papel e a autoridade do bispo em uma Igreja sinodal.

Sínodo como algo natural na Ásia

O tema dos relacionamentos despertou enorme interesse, de acordo com o Cardeal Gracias, que destacou a enorme contribuição sobre essas questões no mundo asiático. Ele lembrou a assembleia asiática realizada em 2022, com a participação de 200 bispos, que, nas palavras do arcebispo de Bombay, abordou esses mesmos argumentos, concentrando-se na renovação pastoral. “O Sínodo chegou de maneira natural à Ásia“, disse o cardeal, para quem é necessário trabalhar em conjunto com respeito.

Entre os elementos importantes, ele afirmou que a Igreja deve construir pontes, e é por isso que o relacionamento com outras religiões é importante, insistindo que “temos que trabalhar juntos em busca de Deus”. O cardeal também se referiu à mídia digital e sua importância para os jovens. A esse respeito, ele contou que recentemente um jovem se dirigiu aos bispos asiáticos dando-lhes as boas-vindas ao mundo digital, reconhecendo que os bispos “resistiram a esse mundo digital”. Sobre o caminho sinodal, ele pediu um progresso contínuo e frutífero a fim de revitalizar a Igreja, e também destacou as contribuições dos delegados fraternos, membros de outras igrejas, na assembleia.

O Sínodo é mais do que burocrático

A proximidade e a solidariedade com aqueles que sofrem com a guerra é uma realidade que tem a ver com o que é feito no Sínodo, disse Dom Grusas, que insistiu no fato de que o Sínodo é mais do que algo burocrático. Falando sobre o módulo das relações, ele disse que, ao lidar com a guerra, leva-se em conta o que o Papa diz em Fratelli tutti, somos uma família que reza pela paz. Ele também enfatizou a importância da oração pessoal, do amor entre as igrejas, com aqueles que estão em dificuldade, referindo-se à proximidade da Igreja Europeia com a Igreja na Ucrânia e em Gaza, pedindo para “rezar pelo milagre da paz”.

O presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa destacou que, nesta Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, os laços se estreitam, algo que “ajuda a entender o que significa ser Igreja, caminhar juntos como batizados que têm uma missão“. Por isso, não hesitou em dizer que “este Sínodo é uma oportunidade para que todos aprendam a ser Igreja”, uma afirmação decisiva, porque além dos temas a serem tratados, o fundamental é encontrar o caminho a seguir para ser uma Igreja que sente a necessidade de caminhar junto.

Escutar os excluídos como Igreja

A irmã Barron também se referiu ao crescimento e aprofundamento da capacidade de escutar uns aos outros. Ela que vê a necessidade de escutar a vontade de Deus, para aprender a respeitar as diferenças. Nesse sentido, a presidenta da União Internacional de Superioras Gerais (UISG), enfatizou que não devemos convencer os outros a aceitar o que acreditamos e como a Igreja pode escutar melhor aqueles que são excluídos, “devemos escutar cada vez melhor, a sinodalidade é o modus vivendi de uma Igreja que vive em missão“, insistindo que o desafio é ir até aqueles que não são ouvidos.

A religiosa contou a experiência da UISG, que tem um escritório dedicado à sinodalidade, que se reúne com uma equipe intercultural, descobrindo como imagem da sinodalidade a imagem de uma ponte, uma ponte para ir além. Elas estabeleceram quatro prioridades: crescer no discernimento, saber escutar e construir melhores relacionamentos com toda a humanidade e com a criação, a fim de poder realizar melhor esses relacionamentos. Ela também se referiu à necessidade de revisar o modelo de liderança, para torná-lo mais sinodal, para ajudar e ser solidário com aqueles que como Vida Religiosa estão nas periferias, prestando atenção em como continuar esse caminho na Vida Religiosa.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Dom Jaime Spengler é anunciado entre os 21 novos cardeais a serem criados pelo Papa Francisco

O Papa Francisco anunciou neste domingo, 6 de outubro, a criação de 21 novos cardeais num Consistório a ser celebrado no dia 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição. Entre eles, está o arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler. Aos 64 anos, dom Jaime também tem atuado na presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), para a qual foi eleito poucas semanas depois de sua eleição para a Presidência da CNBB, em 2023.

Além de dom Jaime, foram escolhidos para o cardinalato bispos e padres que atuam na cúria romana e de outras partes do mundo, como Argentina, Peru, Equador, Chile, Japão, Filipinas, Sérvia, Costa do Marfim, Argélia, Indonésia, Irã, Itália, Canadá e Ucrânia.

“A proveniência deles expressa a universalidade da Igreja que continua a anunciar o amor misericordioso de Deus a todos os homens da terra. A inclusão na diocese de Roma manifesta, portanto, o vínculo inseparável entre a Sé de Pedro e as Igrejas particulares espalhadas pelo mundo”, afirmou o Papa Francisco.

Papa Francisco durante a oração do Angelus na qual anunciou a criação de novos cardeais | Foto: Vatican Media

Em vídeo enviado de Roma, dom Jaime manifestou gratidão ao Papa Francisco pela indicação e recordou o clero e o povo de Deus da arquidiocese de Porto Alegre e, especialmente, os que foram marcados pelas tragédias climáticas no Rio Grande do Sul, com as enchentes; no Centro-Oeste, com as queimadas; e na Amazônia, com as secas. Também dirigindo-se aos bispos do Brasil e da América Latina e do Caribe, dom Jaime fez votos de que “juntos possamos cooperar da melhor forma para promover o Evangelho em todas as realidades da nossa sociedade”.

“Caminhemos juntos na comunhão a fim de que possamos promover já entre nós o Reino de Deus e a sua justiça. Muito obrigado, em primeiro lugar, novamente ao Santo Padre, mas um obrigado também à proximidade, à fraternidade de cada irmão e de cada irmã. Deus a todos abençoe!”

Biografia e trajetória eclesial

Dom Jaime Spengler nasceu em 6 de setembro de 1960, em Gaspar (SC). Ingressou na Ordem dos Frades Menores, também conhecida por Ordem de São Francisco (Franciscanos) em 20 de janeiro de 1982, pela admissão no Noviciado na cidade de Rodeio (SC). Cursou Filosofia no Instituto Filosófico São Boaventura, de Campo Largo (PR), e Teologia no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ), concluindo-o no Instituto Teológico de Jerusalém, em Israel.

Foi ordenado sacerdote em 17 de novembro de 1990, na sua cidade natal. Fez doutorado em Filosofia na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, e atuou dentro da Ordem dos Frades Menores em diversas missões e cidades do país até 2010, quando foi nomeado pelo Papa Bento XVI como bispo auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre. A ordenação episcopal, presidida por dom Lorenzo Baldisseri, núncio apostólico no Brasil na ocasião, ocorreu dia 5 de fevereiro de 2011, na paróquia São Pedro Apóstolo, em Gaspar.

Dom Jaime Spengler é arcebispo metropolitano de Porto Alegre desde 18 de setembro de 2013, quando foi nomeado pelo Papa Francisco que, concomitantemente, recebeu o pedido de renúncia de dom Dadeus Grings. Escolheu como seu lema episcopal “Gloriar-se na Cruz” (Cl 6,14) – In Cruce Gloriari.

No quadriênio de 2011 a 2015, foi membro da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenado e a Vida Consagrada da CNBB. Em 2015, foi eleito presidente desta comissão. Entre os destaques de sua atuação à frente do colegiado, consta a aprovação das novas Diretrizes para a Formação de Presbíteros da Igreja no Brasil, em 2018.

Em maio de 2019, foi eleito primeiro vice-presidente da CNBB. No mesmo quadriênio, foi bispo referencial da CNBB para o Colégio Pio Brasileiro, em Roma, vice-presidente da Comissão Especial para o Acordo Brasil-Santa Sé da CNBB e bispo referencial CNBB – Regional Sul 3 para Vida Consagrada e Ministérios Ordenados.

No dia 24 de abril de 2023, foi eleito presidente da CNBB para o quadriênio 2023-2027. Semanas depois, no dia 17 de maio, foi eleito presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam). A partir desta função, foi nomeado padre sinodal da XVI Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, cuja segunda etapa ocorre em Roma até o próximo dia 27.

Papa Francisco recebe dom Jaime Spengler em visita à Santa Sé | Foto: Vatican Media

Relações na Igreja Sinodal: “Um lugar onde todos são bem-vindos. Um lugar de cuidado gratuito”

Um novo módulo, o de relações, foi aberto na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade. No dia em que, conforme solicitado pelo Papa Francisco, acontece o Dia de Jejum e Oração pela Paz, no primeiro aniversário do bombardeio que provocou a guerra. Menos de 24 horas após a convocação de um consistório do qual participarão alguns dos participantes da Assembleia Sinodal.

Cardeais na Assembleia Sinodal

São 8 membros da Assembleia Sinodal: Dom Luis Gerardo Cabrera, Arcebispo de Guayaquil (Equador), um dos presidentes delegados; Dom Tarcisio Isao Kikuchi, Arcebispo de Tóquio (Japão); Dom Pablo Virgilio Siongco David, Bispo de Kalookan (Filipinas); Dom Ladislav Nemet, Arcebispo de Belgrado-Smederevo (Sérvia); Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre (Brasil); Dom Ignace Bessi Dogbo, Arcebispo de Abidjan (Costa d’Avorio); Dom Ladislav Nemet, Arcebispo de Belgrado-Smederevo (Sérvia); Dom Dominique Joseph Mathieu, Arcebispo de Teerã-Ispahan (Irã), Dom Roberto Repole, Arcebispo de Turim (Itália). A eles se juntam um dos acompanhantes espirituais da assembleia e o coordenador do Grupo de Estudos 9, que fazem parte do Sínodo, o arcebispo Carlos Gustavo Castillo Mattasoglio, de Lima (Peru). Dez dos 21 novos cardeais são, de uma forma ou de outra, membros do Sínodo, um fato a ser levado em consideração.

Novos cardeais, que continuam o seu trabalho da mesma forma, que se aproximam de todo mundo e são cumprimentados sem cerimónia, que foram abraçados e felicitados pelos participantes da assembleia e entre si, e que receberam felicitações públicas do secretário da Secretaria do Sínodo, Cardeal Mario Grech, que foram respondidas pelos aplausos dos presentes na Aula Paulo VI.

Como um gesto concreto, os participantes foram convidados pelo Esmoleiro Pontifício, Cardeal Konrad Krajewski, a praticar a caridade com a paróquia de Gaza. Para esse fim, o próprio cardeal polonês coletará doações no início da sessão da tarde no Dia de Jejum e Oração. As esmolas serão enviadas imediatamente para a paróquia de Gaza, a quem o Papa telefona todos os dias para perguntar como estão indo e para encorajá-los, enfatizou o esmoleiro papal.

Relacionamentos: com o Senhor, entre irmãos e irmãs e entre as igrejas

No dia 7 de outubro, a Assembleia sinodal iniciou o módulo sobre as Relações. Trata-se de “relações com o Senhor, entre irmãos e irmãs e entre Igrejas”, que “sustentam a vitalidade da Igreja muito mais radicalmente do que suas estruturas“, como lembrou Maria Inazia Angelini em sua meditação, citando o Instrumetum laboris. A monja beneditina concentrou sua reflexão na parábola do Bom Samaritano e nos relacionamentos que aparecem no texto, onde “encontramos implicitamente desenhado, em símbolo, um mapa do caminho sinodal. Que tem sua rede de apoio nos relacionamentos. Relacionamentos nos quais, antes mesmo de fazer, é preciso ver”. Isso porque é “o ver que está na base da espiritualidade sinodal: onde há amor, abre-se uma nova visão”, sublinhou Angelini.

De acordo com a monja beneditina, “o mistério do Mandamento só pode ser entendido através do evento do relacionamento“, sublinhando que o caminho sinodal, iniciado de diferentes maneiras, “é único”, mas, ao mesmo tempo, “para aqueles que o percorrem – o Evangelho nos revela – ele abre diferentes visões: ver e passar, distanciar-se do outro lado”. Isso em um mundo de guerras, que “deixa o ser humano igual à terra: meio morto”. Diante dessa realidade, a missão da Igreja “deve descobrir como abrir seu olhar para a alegria de ver com olhos de compaixão”.

Relacionamentos que falam de Deus, não de si mesmo

São relacionamentos “que falam de Deus, não de si mesmo“, afirmou, analisando as formas de relacionamento dos personagens da parábola do Bom Samaritano, onde “a história do gênero humano é contada”, onde o samaritano cria uma rede de relacionamentos, tece uma cultura de gratuidade. Algo que deveria tornar a Igreja “um lugar onde todos são bem-vindos. Um lugar de cuidado gratuito. Dessa forma, somos verdadeiramente provocados a ser uma igreja sinodal”.

Isso em um mundo, e em uma Igreja, em que “o outro necessitado se torna invisível para aqueles que estão presos em suas próprias agendas, urgências, autorreferências“, em que “a indiferença é o mal de uma sociedade complexa, global, mas anônima”, destacou a monja.

A paz como um horizonte de reflexão

Os trabalhos propriamente ditos foram abertos pela Presidente Delegada desta Congregação Geral, a japonesa Momoko Nishimura, que depois de cumprimentar em espanhol, ela foi missionária na Argentina, passou a palavra ao Relator Geral, Cardeal Hollerich, que apresentou o módulo II, dedicado às Relações, que depois de cumprimentar, lembrou a oração do Rosário deste domingo em Santa Maria Maior, e o jejum e a oração desta segunda-feira, unindo-se aos bons votos para os novos membros do Colégio Cardinalício, em particular os presentes na assembleia.

Na perspectiva da paz, ele pediu “que o anseio pela paz seja o horizonte de nossa reflexão e de nossos intercâmbios e que o Senhor nos mostre o caminho para nos tornarmos pacificadores, a serviço de toda a humanidade”. O cardeal explicou a natureza diferente desse módulo e dos seguintes, em relação aos fundamentos. São três módulos, relações, itinerários e lugares, intimamente interligados, que “iluminam, a partir de diferentes perspectivas, a vida sinodal missionária da Igreja”, como afirma o Instrumentum laboris.

Descrever maneiras de incorporar os Fundamentos

Trata-se de, com base no trabalho da Primeira Sessão da Assembleia Sinodal e refletido no Relatório de Síntese, “delinear formas de encarnar os Fundamentos na vida cotidiana e nas práticas das comunidades cristãs, tornando-os concretos e, portanto, capazes de serem experimentados pelo Povo de Deus”. Relações com o Senhor, entre irmãos e irmãs e entre as Igrejas, “que sustentam a vitalidade da Igreja muito mais radicalmente do que suas estruturas”. De acordo com Hollerich, “essa rede de relações, que oferece aos indivíduos e às comunidades pontos de referência e orientação, é multifacetada e atravessa uma multiplicidade de níveis”.

Essa parte está organizada em quatro seções, cada uma das quais se concentra em um aspecto específico: relações trinitárias, expressas no itinerário da iniciação cristã; relações entre aqueles que receberam o dom do Batismo, membros do Povo de Deus e anunciadores do Evangelho; relações entre o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial; relações entre as Igrejas. Diante disso, o desafio, advertiu o Cardeal, “é estar em sintonia com o movimento que anima o Instrumentum laboris, capaz de manter unidos os diferentes níveis e áreas, e assim alcançar a vida concreta e as práticas de nossas comunidades”.

Algo que decorre do fato de que “o Povo de Deus espera de nós indicações e sugestões sobre como é possível tornar essa visão concretamente tangível: O que o Espírito Santo nos convida a fazer para que as relações dentro de nossas Igrejas sejam mais transparentes e harmoniosas, para que nosso testemunho seja mais crível? Em outras palavras: “O que o Espírito Santo nos convida a fazer para passarmos de uma forma piramidal de exercer autoridade para uma forma sinodal?” O objetivo deste módulo é “tomar medidas para tornar a perspectiva eclesiológica delineada pelo Concílio”. Para isso, será necessário “manter o delicado equilíbrio que mantém o risco de cair em um excesso de abstração, por um lado, ou em um excesso de pragmatismo, por outro”, lembrou Hollerich.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Francisco pede a ajuda de Maria pela paz: “Convertei os que alimentam o ódio”

A paz é uma das grandes preocupações de Francisco, especialmente neste momento em que, como ele já repetiu várias vezes, o mundo está vivendo uma Terceira Guerra Mundial em pedaços. Isso o levou, às vésperas do Dia de Oração e Jejum, que acontece em 7 de outubro, a convocar a reza do Rosário na Basílica de Santa Maria Maggiore, aos pés do Salus Populi Romani, para onde ele sempre vai para encomendar e agradecer por suas viagens apostólicas.

Presença dos participantes da Assembleia Sinodal

Uma celebração com a presença dos participantes da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada na Sala Paulo VI de 2 a 27 de outubro, entre eles alguns dos futuros cardeais, cujos nomes foram anunciados no Angelus de domingo, 6 de outubro. É uma assembleia que pede constantemente pela paz no mundo e da qual participam pessoas que sofrem as consequências das várias guerras que fazem parte do atual panorama mundial.

Francisco invocou “Maria, nossa Mãe”, dizendo: “eis-nos aqui de novo na vossa presença. Vós conheceis as dores e os cansaços que nesta hora pesam sobre os nossos corações”, especialmente o dele, para quem a paz no mundo é algo constantemente presente em seu coração, em sua oração e em seus discursos.

Ele disse a Maria: “Para Vós, erguemos os nossos olhos; sob o vosso olhar encontramos refúgio; e ao vosso coração nos confiamos”, lembrando as “provações difíceis e receios humanos” pelos quais Maria passou. Diante disso, Francisco lembrou que ela foi “corajosa e audaz: tudo confiastes a Deus, respondendo-Lhe com amor e oferecendo-Vos a Vós mesma sem reservas”.

Mulher destemida da caridade

O Papa elogiou Maria como uma “intrépida Mulher da Caridade”, observando que ela foi “apressastes-Vos a socorrer Isabel; com prontidão, acolhestes a necessidade dos esposos nas bodas de Caná; e com fortaleza de espírito, iluminastes no Calvário a noite da dor com a esperança pascal. Por fim, com ternura de Mãe, infundistes coragem aos discípulos atemorizados no Cenáculo e, com eles, acolhestes o dom do Espírito”.

A ela ele orou: “acolhei o nosso grito! Precisamos do vosso olhar de amor que nos convida a confiar no vosso Filho Jesus. Vós que estais disposta a acolher as nossas mágoas, vinde socorrer-nos nestes tempos subjugados pela injustiça e devastados pelas guerras, enxugai as lágrimas dos rostos sofredores de quem chora a morte dos seus entes queridos, despertai-nos do torpor que obscureceu o nosso caminho e tirai do nosso coração as armas da violência, para que se realize sem demora a profecia de Isaías: «transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra» (Is 2, 4).  

Converter corações

Ele também pediu a Maria que voltasse seu “Voltai o vosso olhar maternal para a família humana, que perdeu a alegria da paz e o sentido da fraternidade. Intercedei pelo nosso mundo em perigo, para que preserve a vida e rejeite a guerra, cuide dos que sofrem, dos pobres, dos indefesos, dos doentes e dos aflitos, e proteja a nossa Casa Comum”.

Por fim, ele disse: “Ó Rainha da Paz, de Vós imploramos a misericórdia de Deus. Convertei os que alimentam o ódio, silenciai o ruído das armas que geram a morte, extingui a violência que grassa no coração humano e inspirai projetos de paz nas mãos de quem governa as Nações”. À Rainha do Santo Rosário, Francisco disse: “desatai os nós do egoísmo e dissipai as nuvens sombrias do mal. Enchei-nos com a vossa ternura, levantai-nos com a vossa mão carinhosa e dai a estes filhos, a vossa carícia de Mãe, que nos faz esperar o advento de uma nova humanidade onde ‘o deserto se converterá em pomar, e o pomar será como uma floresta. Na terra, agora deserta, habitará o direito, e a justiça no pomar. A paz será obra da justiça’ (Is 32, 15-17)”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Mounir Khairallah, o bispo maronita que foi ensinado por sua tia monja a perdoar os assassinos de seus pais

A paz é uma das grandes preocupações do Papa Francisco, daí a convocação de um Dia de Oração e Jejum pela Paz na segunda-feira, 7 de outubro, e a recitação do Rosário no domingo, 6 de outubro. Uma paz que só é possível por meio do perdão, algo que nem sempre é fácil de aceitar. Daí a importância do testemunho dado na Sala Stampa do Vaticano pelo bispo maronita Mounir Khairallah.

Um país que teve uma guerra imposta

O bispo libanês, um dos membros da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, começou contando a situação em seu país, que está em guerra desde 1975, uma guerra que começou com a desculpa de ser uma guerra religiosa entre muçulmanos e cristãos. Dom Mounir Khairallah não hesitou em afirmar que “50 anos depois, eles não conseguiram fazer com que as pessoas entendessem que não se trata de uma guerra religiosa, mas de uma guerra imposta ao Líbano”. Ele lembrou as palavras do Papa João Paulo II, que definiu o Líbano como um país que é uma mensagem de coexistência, liberdade, democracia e vida, caracterizado pelo respeito à diversidade, algo que o Papa Francisco também afirmou. De acordo com o bispo, “o Líbano é uma mensagem de paz e deve continuar a ser uma mensagem de paz”.

Isso porque é “o único país do Oriente Médio onde cristãos, muçulmanos e judeus podem continuar a viver juntos, no respeito à sua diversidade em uma nação que é uma nação modelo”, como disse Bento XVI. Diante dessa situação de guerra prolongada, o bispo reconheceu sua dificuldade em falar do sínodo e do perdão, o perdão que o Papa Francisco escolheu como o sinal desta Segunda Sessão, lembrou. Falar de perdão e reconciliação, “enquanto meu país, meu povo sofre as consequências de guerras, conflitos, violência, vingança, ódio”.

Condenamos o ódio, a vingança e a violência.

“Nós, libaneses, queremos sempre condenar o ódio, a vingança e a violência. Queremos construir a paz e somos capazes de fazê-lo”, disse ele, afirmando que ‘para mim, essa é uma ótima mensagem para falar sobre o perdão’. Na ocasião, ele enfatizou que “o povo do Líbano rejeita a linguagem do ódio e da vingança”. O perdão é algo que o Bispo Mounir Khairallah foi chamado a experimentar quando criança. Como ele contou, produzindo um silêncio estrondoso de todos os ouvintes, “quando eu tinha cinco anos de idade, alguém foi à minha casa e assassinou selvagemente meus pais”.

Os quatro irmãos, o mais novo com dois anos de idade, foram levados por sua tia monja maronita para seu mosteiro, onde, na igreja, “ela nos convidou a ajoelhar e orar ao Deus misericordioso, o Deus do amor”. Ela nos disse, continuou o bispo, “não rezem por seus pais, seus pais são mártires diante de Deus. Orem pela pessoa que os matou e tentem perdoar durante toda a vida, para que sejam filhos de seu pai, que está no céu”, lembrando as palavras de Jesus: “Se vocês amam aqueles que os amam, qual é o mérito de fazer isso? Amem aqueles que os perseguem”. “Quatro crianças que carregamos isso em nossos corações”, disse o bispo maronita, acrescentando que ‘o Senhor nunca nos abandonou e nos permitiu viver esse perdão’.

Renovando sua promessa de perdão

O bispo Mounir Khairallah foi ordenado sacerdote no aniversário do assassinato de seus pais, na véspera da festa da Exaltação da Santa Cruz, uma grande festa para as igrejas orientais. Citando a frase do Evangelho: “o grão, a menos que morra na terra, não pode dar frutos”, ele destacou que “o fruto desse grão é a vontade de Deus que nossos pais aceitaram e pela qual vivemos”, enfatizando que “renovo minha promessa de perdão a todos aqueles que nos prejudicam”.

Poucos meses depois de sua ordenação, em 77-78, ele deu um retiro para alguns jovens, aos quais falou sobre o sacramento da reconciliação e do perdão, percebendo que “os jovens não me entendiam, estavam armados e queriam fazer guerra contra nossos inimigos”. Depois de quatro horas, ele percebeu que eles não aceitaram a mensagem, então lhes contou o que havia vivido e sua experiência de perdão e reconciliação. “Depois de um tempo de silêncio, um jovem se levantou e me disse: “Padre, suponho que o senhor tenha perdoado, mas imagine agora, padre, se o senhor estiver no confessionário e essa pessoa estiver ao seu lado, se confessar e pedir perdão, o que o senhor faz?” Naquele momento, reconhecendo que não era fácil responder, ele entendeu o que significava perdoar.

Eu daria a absolvição ao assassino de meus pais.

“É verdade, eu perdoei, mas agora sei que perdoei de longe, porque nunca o vi. Agora você me ajuda a vê-lo ao meu lado, e eu também sou um homem, tenho meus sentimentos. Mas, finalmente, sim, eu lhe daria a minha absolvição, o meu perdão”, disse aos jovens, fazendo-os ver que ‘o perdão é difícil, mas não é impossível’, que, apesar de compreendê-los, “é possível viver o perdão se quisermos ser discípulos de Cristo na terra de Cristo”. Isso porque, na Cruz, Jesus perdoou, ao que ele questionou: “Será que somos capazes de perdoar?”

Para o bispo maronita, “todos aqueles que fazem guerra contra nós, que consideramos inimigos, israelenses, palestinos, de todas as nacionalidades, não são inimigos, porque aqueles que fomentam a guerra não têm identidade, nem confissão, nem religião”. Nesse sentido, ele afirmou que “as pessoas querem paz, querem viver em paz na terra da paz, a terra de Jesus Cristo, rei da paz”. Portanto, “também hoje, apesar de tudo o que está acontecendo depois de 50 anos de guerra cega e selvagem, apesar de tudo, nós, como povos de todas as culturas, de todas as confissões, nós, como povos, queremos a paz, somos capazes de construir a paz”.

Vamos construir a paz

O bispo Mounir Khairallah pediu para deixar de lado os políticos, que fazem e seguem seus interesses, “mas nós, como povos, não queremos tudo isso, rejeitamos tudo isso, um dia teremos a oportunidade de passar nossa mensagem e dizer nossa palavra contra a vingança, contra o ódio, contra as guerras”. A partir daí, ele pediu que lhes fosse permitido construir a paz, “pelo menos para nossos filhos, para as gerações futuras que têm o direito de viver em paz”.

Algo que leva o bispo maronita a entender a mensagem do Papa Francisco, “quando nos convidou a viver juntos a sinodalidade, que é uma prática em nossas igrejas orientais, e pediu a toda a igreja que começasse a viver o perdão, a reconciliação, a conversão pessoal e comunitária para caminhar juntos rumo à construção do reino de Deus”, afirma, insistindo que “se quisermos fazê-lo, podemos fazê-lo”. Sua vida representa o melhor exemplo do que significam a paz, o perdão e a reconciliação.

Vê-lo falar é um testemunho claro de que é possível perdoar para viver em paz, também para aqueles que, quando ele tinha cinco anos de idade, viram seus pais serem brutalmente assassinados. Sua tia, por meio da oração, ensinou-lhe que, embora seja difícil, humanamente difícil, é possível trilhar esse caminho. Esse é o caminho que Francisco nos propõe para este Dia de Jejum e Oração.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Segunda Sessão da Assembleia Sinodal: “Sinodalidade significa que todos se sentem em casa”

A Assembleia Sinodal continua recheada de temas a serem tratados, algo que se torna conhecido todos os dias nas coletivas de imprensa, nas quais alguns dos membros da assembleia vêm à Sala Stampa do Vaticano para compartilhar suas impressões sobre o que estão vivenciando no salão sinodal.

Além dos habituais Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para a Comunicação, e Sheila Pires, Secretária da Comissão para a Comunicaçãodia também contou com a presença do Bispo de Kalookan (Filipinas), dom Pablo Virgílio David, Dom Launay Saturné, arcebispo de Cap Haïtien (Haiti), Dom Mounir Khairallah, bispo de Batrun dos Maronitas (Líbano), e a teóloga Catherine Clifford, professora da St. Paul University em Ottawa (Canadá). Todos eles coordenados por Cristiane Murray, vice-diretora da Sala Stampa.

Elementos abordados na sala de aula sinodal

Como de costume, foram revelados os elementos fundamentais presentes na manhã e na tarde anterior, um trabalho realizado por Pires e Ruffini. O prefeito do dicastério para a comunicação destacou como importante a intervenção do cardeal Grech, secretário do Sínodo, que anunciou a necessidade de a Assembleia entrar em diálogo com os 10 grupos de estudo criados pelo Papa, o que foi aprovado com 265 votos a favor e 74 contra. O trabalho nas últimas horas foi realizado em círculos menores, que elaboram relatórios a serem entregues à Secretaria do Sínodo, onde são coletados os pontos a favor e o que precisa ser aprofundado, para os quais deve ser sugerido o que e como fazer isso. Ele também se referiu à oração do Rosário neste domingo em Santa Maria Maggiore, onde o Papa invocará a Paz, e ao Dia de Oração e Jejum na segunda-feira, dia 7.

Tópicos mais relevantes

Quanto aos temas, Sheila Pires lembrou o desejo de alguns membros de que o Sínodo fizesse um apelo à paz, com passos concretos para acabar com a guerra e pôr fim às migrações forçadas, ser artesãos da paz e condenar os fundamentalismos, denunciando o tráfico de armas, causa do sofrimento mundial, porque às vezes “além de rezar, é preciso denunciar”, sublinhou.

Na assembleia, surgiu o tema dos pobres, que são os sujeitos e não os destinatários da sinodalidade, uma vez que o caminho para a salvação é frequentemente mostrado pelos últimos. O clamor da terra e dos povos também foi ouvido, assim como o fato de a caridade aparecer apenas duas vezes no Instrumentum laboris, o que não é bom, pois “a caridade e a misericórdia estão no centro da vida de todos os cristãos”. Pires lembrou que “sinodalidade significa que todos se sintam em casa, evitando formas de discriminação, ouvindo aqueles que não são ouvidos”.

Sobre o papel das mulheres, tema que voltou a ser abordado, foi enfatizado que não deve acontecer que “as mulheres que querem servir a Igreja, que tanto ajudam a Igreja e a sociedade, que são comprometidas, estejam em posições marginais”, sendo dito da necessidade de acolher a todos, “inclusive as mulheres que querem ser ordenadas sacerdotes” e outros grupos marginalizados. Também foi discutido o tema dos jovens, sujeitos e não objetos de evangelização, atraídos pelo radicalismo evangélico, que deve levar a colocar Jesus novamente no centro. O tema do ecumenismo foi abordado, e foi afirmado que “a sinodalidade é uma forma de lutar contra o clericalismo“, destacando a necessidade de alcançar as igrejas locais e de realizar sínodos diocesanos.

Importância da reunião de párocos

Entre a primeira e a segunda sessão da Assembleia, foi realizada uma consulta global com os párocos, uma solicitação do Papa, como lembrou Dom Pablo Virgílio David. Depois de participar da reunião de párocos em Roma, em maio, foi organizada uma consulta continental com os párocos, a quem o Papa pediu que fossem apóstolos da sinodalidade, e o progresso da sinodalidade em cada conferência. Sobre a migração dos filipinos, primeiro das áreas rurais para as cidades locais, especialmente Manila, e depois para fora das Filipinas, ele disse que isso é visto como um desafio, já que os migrantes, mesmo dentro do país, são vistos como uma ameaça, o que levou a Igreja filipina a fazer missão entre eles e, assim, estar no meio dos mais pobres, nas periferias, um termo que não era bem conhecido nas Filipinas, mas que o processo sinodal tem ajudado a compreender.

Preparando a Assembleia Sinodal em meio a dificuldades

A preparação para a Primeira Sessão foi muito difícil no Haiti, segundo Dom Launay Saturné, dada a grave situação social de insegurança, com falta de respeito à dignidade da pessoa, o que leva a constantes massacres, diante dos quais as autoridades nada fazem, denunciou o bispo. Isso faz com que as pessoas fujam, o que dificulta a missão da Igreja, dada a violência dos grupos armados, que inclusive impede o acesso à educação. Apesar de tudo, a Igreja fez todo o possível para se preparar para a Assembleia Sinodal, buscando, por meio da formação e da catequese, transmitir os valores que tornam possível a democracia, e pedindo, como Conferência Episcopal, que as autoridades realizem a transição, algo que está parado há muitos anos. A Igreja pede à população que colabore para alcançar a paz e a segurança, destacando o apoio constante do Papa e agradecendo sua proximidade.

Um país que rejeita a linguagem do ódio e da vingança

O Líbano está em guerra desde 1975 e, 50 anos depois, não se quer reconhecer que se trata de uma guerra imposta. Um país que, nas palavras do bispo maronita Mounir Khairallah, é “uma mensagem de paz e deve continuar sendo uma mensagem de paz, no único país do Oriente Médio onde há coexistência pacífica entre cristãos, judeus e muçulmanos”. O bispo, cuja vida foi profundamente marcada pela violência desde que seus pais foram brutalmente assassinados quando ele tinha cinco anos de idade, diz que no Líbano “queremos construir a paz e somos capazes de fazê-lo“, em um país cuja população rejeita a linguagem do ódio e da vingança.

Um clima de grande abertura

O clima é muito diferente na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, observou Catherine Clifford, que relembrou o trabalho realizado no Canadá, quando trabalharam juntos para refletir sobre o Relatório de Síntese. Sobre a primeira semana, ela disse que muito progresso foi feito, destacando a importância da oração, as conversas sobre o processo sinodal e o clima de grande abertura, que faz com que se sinta “a liberdade que nos permite caminhar em direção a questões importantes“. Ele vê os passos dados durante esses dias como “um marco de referência para abordar questões práticas”.

Em sua partilha, a teóloga canadense destacou a questão das igrejas locais como fundamental, “é importante ouvir as histórias das igrejas locais e aprender umas com as outras“. Ela também destacou o aumento da presença de delegados ecumênicos fraternos, que contribuem para a conversa de forma muito profunda e sábia, sentem-se em casa e percebem que também haverá repercussões para suas igrejas. Por fim, Clifford disse que “há uma série de questões que nossas igrejas precisam abordar, mas precisamos fazê-lo juntos, porque isso dará mais frutos”, ressaltando a importância do trabalho dos teólogos nesta Segunda Sessão.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1