Cardeal Aguiar: “Enfrentemos com esperança aqueles que criticam e dificultam a implementação da vida sinodal em nossas comunidades”

A celebração eucarística no Altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro, onde estiveram presentes os participantes da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo da Sinodalidade, constituiu mais um passo no desenvolvimento das atividades, marcadas nestes dias pela reflexão sobre os Lugares.

A desordem egoísta causa más ações

A missa foi presidida por um dos presidentes delegados do Sínodo, o Arcebispo da Cidade do México, Cardeal Carlos Aguiar. Em sua homilia, começou recordando o conselho de São Paulo aos Gálatas, a quem disse que “a desordem egoísta do homem é a causa das más ações”. Diante dessa realidade, questionou como superar essa tendência, ao que respondeu que isso se consegue “aprendendo a deixar-se guiar pelo Espírito Santo; para o que o caminho é conhecer Jesus Cristo, e assumir como bom discípulo, seu testemunho de vida e seus ensinamentos”.

De acordo com o cardeal mexicano, “dessa forma obteremos os frutos do Espírito Santo: amor, alegria, paz, generosidade, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e autocontrole”. Nesse caminho, continuou, “sem dúvida, ganharemos, como Jesus expressa no Evangelho, a liberdade de intervir e corrigir aqueles que são desviados, mal orientados ou pretensiosos, que se apresentam como modelos para os outros ou que exigem encargos que não cumprem”.

Comprometidos com a vivência e a promoção da sinodalidade

Para Aguiar, “é oportuno, diante desta Palavra de Deus, fortalecer nossa confiança na ajuda divina para enfrentar com esperança as diferentes presenças e comportamentos que, dentro e fora da Igreja, criticam e dificultam a aplicação da vida sinodal em nossas comunidades eclesiais”. Uma dinâmica que deve nos levar a nos perguntar “até que ponto estamos comprometidos em viver e promover a sinodalidade em nossas próprias áreas de responsabilidade eclesial e social”.

Isso é influenciado por “nossas expectativas condicionadas por nossos próprios contextos sociais e eclesiais”. Em vista disso, ele convidou a “lembrar em nossa oração habitual que certamente não nos faltará a assistência do Espírito Santo para promover nossas tarefas específicas, no caminho e na prática sinodal”. E, juntamente com isso, agir com coerência, pois assim “obteremos os frutos do Espírito Santo, percebendo, por meio de nossa realização, a intervenção divina, que muitas vezes nos surpreenderá, alcançando muito mais do que humanamente esperávamos”.

Incentivar para que ninguém desanime ao longo do caminho

“Essa experiência espiritual de ver a assistência divina em nossas responsabilidades diárias nos permitirá reconhecer os benefícios do Espírito Santo nos outros e encorajar os membros de nossas comunidades para que, diante das dificuldades habituais, como bons discípulos, não desanimem ao longo do caminho”, enfatizou o arcebispo da Cidade do México.

Uma ação com a qual “ganharemos a liberdade espiritual para intervir por meio da correção fraterna, solidária e sincera de nossos vizinhos que precisam de ajuda”, com a qual “nos desenvolveremos como pessoas confiantes no Senhor Jesus, que sabem como não se deixar guiar por critérios mundanos, e seremos felizes, não duvidemos, como uma árvore plantada junto ao rio da graça, que dá frutos em seu tempo e nunca murcha”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Relação entre a Igreja local e a universal: um elemento que sustenta a sinodalidade

Os fóruns teológico-pastorais, uma novidade da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, retomaram suas atividades na quarta-feira. Nessa ocasião, eles abordaram o tema do Exercício do Primado e o Sínodo dos Bispos, e a Relação mútua entre a Igreja local e a Igreja universal.

Igreja relacional e, portanto, sinodal

“A Igreja é constitutivamente relacional e, portanto, sinodal”, disse Miguel de Salis Amaral, citando as palavras do Papa Francisco na abertura da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal. Nesse sentido, disse que “as relações alimentam e sustentam a sinodalidade”, afirmando que “a relação entre a Igreja local e a Igreja universal é uma relação que é o fundamento da sinodalidade”. A partir daí, ele quis convidar um olhar de fé para essa relação, apontando para o Mistério, buscando oferecer ajuda no discernimento para se tornar uma Igreja sinodal e missionária.

A partir daí, refletiu sobre o núcleo teórico do Mistério e sua concretização dinâmica, afirmando, com o Vaticano II, que a Igreja local é uma parte da Igreja universal, na qual o todo está presente e em ação, a riqueza de todos os dons sacramentais e carismáticos está presente. A Igreja local e a universal estão relacionadas, não são alternativas, dando origem a várias instituições em vista da missão, diversas com várias formulações jurídicas. O cristão pertence à Igreja local e universal e, portanto, está sempre em casa, disse ele.

Em suas palavras, destacou a Eucaristia e o episcopado como expressões da catolicidade, da comunhão entre a Igreja local e a universal, sendo a Igreja universal um corpo de igrejas, ressaltando a importância da pluralidade de lugares. “A sinodalidade nos orienta para uma compreensão da relação entre a Igreja local e a universal, e nos leva a ver a Igreja universal como uma concretização visível das diversidades”, ressaltou. Algo que se concretiza de diferentes maneiras, com diferentes sotaques, de modo a enriquecer a todos e favorecer o discernimento sinodal, enriquecendo a missão evangelizadora.

A vida missionária sinodal é vivida na Igreja local

Para Antonio Autierio, esse tema está presente em muitas partes do Istrumentum Laboris, especialmente no Módulo Lugares. A partir daí, ele enfatizou a igreja local como o lugar onde a vida sinodal missionária é experimentada. Em sua opinião, há dois caminhos para o relacionamento entre a Igreja local e a universal, um com uma visão hierárquica e piramidal, destacando a Igreja universal, e o outro baseado no Povo de Deus como fonte de unidade.

De um ponto de vista prático, como teólogo moral, ele se referiu às ações da Igreja, refletindo sobre o exercício da autoridade na Igreja local, enfatizando a importância do contexto na compreensão da relação entre fé e moral, uma vez que esta é influenciada pela cultura do povo. A antropologia e as condições sociais não podem ser deixadas de lado, considerando a necessidade de reconhecer a autoridade de ensino de todos os crentes, inspirados por Karl Rahner, para tornar as Boas Novas do Evangelho uma fonte de vida para todos, defendendo um modelo experimental de expressão da doutrina.

Conselhos pastorais e concílios provinciais

Miriam Wijlens falou sobre os conselhos pastorais, em vários níveis, e os concílios provinciais, que o Povo de Deus vê como necessários, como verdadeiros veículos da Igreja sinodal para viver a responsabilidade batismal, tornando a Igreja inclusiva, responsável, transparente e ecumenicamente acolhedora. Nessa perspectiva, destacou alguns elementos: o método de seleção dos membros, que sejam eleitos e não nomeados, com diversidade de presenças, abertos a todos, com membros com disposição missionária, ecumênica, com uma agenda em que os membros possam apresentar pontos em vista da corresponsabilidade.

Para que esses órgãos tenham impacto, ela defende a obrigação de ouvi-los, de que todos tenham todas as informações e de que as pessoas consultadas possam se expressar livremente. Isso se estende ao trabalho comum entre as igrejas vizinhas, com a participação de todo o povo de Deus, não apenas dos bispos, dos organismos da Igreja, onde todos os participantes têm voto deliberativo, explicando quem deve ser convidado e qual deve ser sua tarefa. Finalmente, ela se referiu à tomada de decisões, cujo modo vem mudando para responder a várias necessidades, desafios e possibilidades, um processo de transformação que deve estar presente em uma Igreja sinodal.

Igreja local e Igreja universal como uma só

Finalmente, o prefeito do Dicastério dos Bispos, Cardeal Robert Prevost, recordou que Santo Agostinho afirmou que a Igreja local e a Igreja universal são únicas, com o objetivo de proclamar o Evangelho. O prefeito recordou o curso para novos bispos do qual participou, onde os bispos foram chamados a olhar além dos limites de suas dioceses e a entender o que significa fazer parte da Igreja Católica, da Igreja universal, da importância de crescer em um profundo sentido de comunhão, algo que deve ser promovido diante de tantas situações de sofrimento.

O prefeito do Dicastério para os Bispos delineou como os bispos são nomeados, referindo-se novamente ao curso para novos bispos, que representa uma experiência da natureza universal da Igreja, vislumbrada no fato do encontro e do diálogo com bispos de todas as partes do mundo, cada um enfrentando seus próprios desafios e obstáculos. “A unidade é criada na diversidade, mas precisamos fortalecer esses laços de comunhão”, enfatizou Prevost, algo que ele vê nos círculos menores, onde há uma compreensão do que significa fazer parte da Igreja universal.

Em cada Igreja local há a Igreja universal, mas nenhuma Igreja local representa toda a essência da Igreja universal”, ressaltou o prefeito. Para o Cardeal Prevost, “a perseverança na oração é um dever primordial para fortalecer a solidariedade”. Em suas palavras, ele analisou várias realidades que buscam criar vínculos entre as igrejas locais, sempre com o objetivo de anunciar o Evangelho em todo o mundo.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Santo Inácio de Antioquia, o bispo perseguido e jogado às feras

Origens 

Descendente de uma família pagã, não romana, Inácio converteu-se ao cristianismo em idade avançada, graças à pregação de São João Evangelista, que havia passado por aquelas terras. Santo Inácio foi o terceiro bispo de Antioquia, na Síria, cidade que foi a terceira metrópole do mundo antigo — depois de Roma e Alexandria, no Egito —, e da qual o próprio São Pedro foi o primeiro bispo.

Os seguidores da sua Igreja o definiam como um cristão “fogoso”, segundo a etimologia do seu nome. 

Santo Inácio de Antioquia era um Bispo forte, um pastor de zelo ardente

Perseguição do Imperador Trajano

Durante o seu episcopado, começou a terrível perseguição do imperador Trajano, da qual também o Bispo foi vítima por não querer negar sua fé em Cristo. Por isso, foi preso e transportado acorrentado para Roma. Assim, começou a sua longa viagem, rumo ao patíbulo, durante a qual foi torturado pelos guardas, até chegar ao seu destino final.

Páscoa 

Preso e condenado, Inácio foi conduzido acorrentado, de Antioquia à Roma, onde se organizavam festas em homenagem ao imperador; e os cristãos serviam de espetáculo, no circo. No Coliseu, seu corpo foi despedaçado pelas feras, durante as celebrações da vitória do imperador na Dácia, no ano 107.

Sete Cartas 

Durante sua viagem de Antioquia à Roma, Santo Inácio escreveu sete cartas. Nestas cartas, o Bispo enviado à morte recomendava aos fiéis que fugissem do pecado; para se proteger contra os erros dos gnósticos; sobretudo para manter a unidade da Igreja.

As sete lindas cartas que constituem um documento inimitável da vida da Igreja na época 

As Primeiras Cartas 

Ao chegar à Esmirna, escreveu as quatro primeiras cartas, três das quais dirigidas às comunidades da Ásia Menor: aos Efésios, Magnésios e Trálios. Nelas, ele expressa a sua gratidão pelas muitas demonstrações de carinho. 

Quarta Carta

A quarta carta, ao invés, foi dirigida à Igreja de Roma, na qual faz um apelo aos fiéis para não impedirem seu martírio, do qual se sentia honrado, pela possibilidade de percorrer o caminho e a Paixão de Jesus.

Três últimas cartas 

De passagem por Trôade, Inácio escreveu outras três cartas: à Igreja da Filadélfia, de Esmirna e ao seu Bispo, Policarpo. Em suas missivas, pedia a solidariedade espiritual dos fiéis com a Igreja de Antioquia, que passava pelas provações do eminente destino do seu pastor; ao Bispo Policarpo, ofereceu interessantes diretrizes de como cumprir a sua função episcopal.

Cartas que declararam o seu amor ao Cristo e à Sua Igreja

Ele escreveu também páginas de verdadeiras e próprias declarações de amor a Cristo e a Sua Igreja, que, pela primeira vez, foi chamada “católica”; testemunhos do conceito tripartido do ministério cristão entre Bispos, presbíteros e diáconos; e ainda diretrizes para combater a heresia do Docetismo, que acreditava na Encarnação do Filho apenas como aparência e não real.

Enfim, através das cartas de Inácio, percebemos seu desejo, quase como uma súplica ardorosa, de que os fiéis mantivessem a Igreja unida, contra tudo e contra todos.

Minha oração

“Querido Inácio, pela tua valentia, soubeste doar a tua vida em favor do Evangelho, reconhecendo que seu sangue seria semente de novos cristãos, zelai pela Igreja e seus representantes, para que tenham a mesma doação e coragem sua. Amém!”

Santo Inácio de Antioquia , rogai por nós!

O Sínodo discute a substituição das conferências episcopais por estruturas sinodais

papel dos teólogos ganhou importância na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade. Alguns deles, como o coordenador desse grupo, Dario Vitale, o canonista espanhol José San José Prisco, a teóloga romena Klára Antonia Csiszar e o teólogo australiano Ormond Rush, compartilharam suas reflexões na coletiva de imprensa de 16 de outubro.

Papel das Conferências Episcopais

Sobre o que foi desenvolvido na Sala Sinodal, o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, destacou que na Igreja, desde o início, sempre houve uma relação estreita com o território. Ele também refletiu sobre o mundo digital e seus perigos, a necessidade de as paróquias serem lugares de encontro, a necessidade de ser criativo para fortalecer a presença da Igreja em mais áreas, algumas questões relacionadas às conferências episcopais, também em nível continental, o compromisso de preservar a unidade da Igreja, o ministério do Papa a serviço da unidade e a descoberta do interior do coração humano como o primeiro lugar.

Esses elementos também estiveram presentes nas palavras da secretária da Comissão de Comunicação, Sheila Pires. Ao falar sobre a unidade da Igreja, a assembleia discutiu a atribuição de competências doutrinárias às conferências episcopais e o perigo de fragmentação da Igreja. Da mesma forma, a necessidade de a Igreja ser um testemunho de evangelização para a cultura, refletindo sobre a diferença entre o depósito e a formulação da fé. A Assembleia Sinodal falou sobre a possibilidade de substituir as conferências episcopais por outras estruturas sinodais. Ele também relatou a insistência em considerar cada lugar como uma terra de missão e a importância de se coordenar com Roma antes de tomar decisões. Por fim, Pires enfatizou a importância das pequenas comunidades de base, “que podem contribuir para tornar a paróquia mais viva e dinâmica”, e a necessidade de se adaptar às mudanças culturais e digitais.

Um texto para vislumbrar caminhos

Para o coordenador dos teólogos, o trabalho deles no atual sínodo é diferente do de outros sínodos. Dario Vitali destacou o fato de os teólogos terem se envolvido em todas as fases do processo e a importância dos grupos linguísticos, onde são captadas as orientações e os consensos para discernir, buscando convergências e pontos que geram mais debate. Para o teólogo italiano, o elemento decisivo é o consenso, que é alcançado ouvindo o Espírito depois de ouvir os outros. A partir daí, se buscará um texto coerente que nos ajude a vislumbrar o caminho a seguir pela Igreja.

Caminho comum de canonistas e teólogos

José San José Prisco destacou o trabalho conjunto entre canonistas e teólogos, algo que não era normal há muito tempo, dado o caminho paralelo entre a Teologia e o Direito Canônico ao longo da história. O canonista espanhol destacou a necessidade mútua, pois “os canonistas se dedicam a compreender melhor a norma canônica e sua possível aplicação ou mudança para o momento atual”. Nesse sentido, sua tarefa é acompanhar os pedidos do Sínodo para possíveis mudanças em relação à legislação, para descobrir entre os pedidos as possibilidades de mudança que poderiam melhorar a legislação atual, uma função que é muito complementar à dos teólogos.

Um par de óculos para vislumbrar o que Deus pede de nós

Reconhecendo a participação no Sínodo como um espaço para o aprendizado conjunto, Klara Antonia Csiszár reconheceu que se abriu um espaço para a teologia no Sínodo, no qual eles querem fazer uma contribuição no estilo sinodal. Os temas dos fóruns são vistos pela teóloga romena como uma orientação diante dos obstáculos. Destacou que se percebe um certo cansaço, desafiando o que chamou de melodia básica, a teologia do Povo de Deus, que deve ser percebido como sujeito da missão. Nessa perspectiva, refletiu sobre o papel dos bispos na Igreja sinodal e na primazia papal, bem como sobre o desafio de fazer da sinodalidade uma prática cotidiana. Para esse fim, ela nos convidou a “colocar novos óculos para pedir um vislumbre do que Deus está pedindo de nós“. Junto com isso, o papel dos teólogos é “fazer a nossa parte para ajudar o nascimento de uma Igreja sinodal”.

Aplicar o Evangelho no tempo e no espaço de hoje

Esse Sínodo nos leva a entrar em um processo que faz parte da tradição viva da Igreja, ouvindo a fé viva do povo de Deus, enfatizou Ormond Rush. O papel do teólogo é ajudar as comunidades cristãs a interpretar e aplicar o Evangelho no tempo e no espaço, para levar o Evangelho a todos, algo revelado por Jesus, afirmando que o Espírito Santo nos conduzirá ao futuro. O teólogo australiano enfatizou a importância de ouvir o sensus fidei a fim de chegar a um acordo, para ver como a figura de Jesus ainda é relevante hoje. Com esse objetivo, a teologia constrói pontes, vendo o Vaticano II como um instrumento para ver a história de uma maneira diferente.

Nesse sentido, Rush lembrou que as perspectivas mudam ao longo da história da Igreja, o que torna necessário entender os sinais dos tempos, que podem fornecer uma nova visão de Deus. Novas respostas são necessárias, porque as respostas antigas impedem a Igreja de proclamar de uma forma que a mensagem possa ser compreendida, de uma forma que seja empática e misericordiosa. Nesse caminho, os teólogos são chamados a ajudar a Igreja a seguir a Tradição, um papel que estão desempenhando no atual processo sinodal.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Cardeal Aguiar: “Enfrentemos com esperança aqueles que criticam e dificultam a implementação da vida sinodal em nossas comunidades”

A celebração eucarística no Altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro, onde estiveram presentes os participantes da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo da Sinodalidade, constituiu mais um passo no desenvolvimento das atividades, marcadas nestes dias pela reflexão sobre os Lugares.

A desordem egoísta causa más ações

A missa foi presidida por um dos presidentes delegados do Sínodo, o Arcebispo da Cidade do México, Cardeal Carlos Aguiar. Em sua homilia, começou recordando o conselho de São Paulo aos Gálatas, a quem disse que “a desordem egoísta do homem é a causa das más ações”. Diante dessa realidade, questionou como superar essa tendência, ao que respondeu que isso se consegue “aprendendo a deixar-se guiar pelo Espírito Santo; para o que o caminho é conhecer Jesus Cristo, e assumir como bom discípulo, seu testemunho de vida e seus ensinamentos”.

De acordo com o cardeal mexicano, “dessa forma obteremos os frutos do Espírito Santo: amor, alegria, paz, generosidade, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e autocontrole”. Nesse caminho, continuou, “sem dúvida, ganharemos, como Jesus expressa no Evangelho, a liberdade de intervir e corrigir aqueles que são desviados, mal orientados ou pretensiosos, que se apresentam como modelos para os outros ou que exigem encargos que não cumprem”.

Comprometidos com a vivência e a promoção da sinodalidade

Para Aguiar, “é oportuno, diante desta Palavra de Deus, fortalecer nossa confiança na ajuda divina para enfrentar com esperança as diferentes presenças e comportamentos que, dentro e fora da Igreja, criticam e dificultam a aplicação da vida sinodal em nossas comunidades eclesiais”. Uma dinâmica que deve nos levar a nos perguntar “até que ponto estamos comprometidos em viver e promover a sinodalidade em nossas próprias áreas de responsabilidade eclesial e social”.

Isso é influenciado por “nossas expectativas condicionadas por nossos próprios contextos sociais e eclesiais”. Em vista disso, ele convidou a “lembrar em nossa oração habitual que certamente não nos faltará a assistência do Espírito Santo para promover nossas tarefas específicas, no caminho e na prática sinodal”. E, juntamente com isso, agir com coerência, pois assim “obteremos os frutos do Espírito Santo, percebendo, por meio de nossa realização, a intervenção divina, que muitas vezes nos surpreenderá, alcançando muito mais do que humanamente esperávamos”.

Incentivar para que ninguém desanime ao longo do caminho

“Essa experiência espiritual de ver a assistência divina em nossas responsabilidades diárias nos permitirá reconhecer os benefícios do Espírito Santo nos outros e encorajar os membros de nossas comunidades para que, diante das dificuldades habituais, como bons discípulos, não desanimem ao longo do caminho”, enfatizou o arcebispo da Cidade do México.

Uma ação com a qual “ganharemos a liberdade espiritual para intervir por meio da correção fraterna, solidária e sincera de nossos vizinhos que precisam de ajuda”, com a qual “nos desenvolveremos como pessoas confiantes no Senhor Jesus, que sabem como não se deixar guiar por critérios mundanos, e seremos felizes, não duvidemos, como uma árvore plantada junto ao rio da graça, que dá frutos em seu tempo e nunca murcha”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Santa Margarida Maria Alacoque, Apóstola do Coração de Jesus

Origens

Santa Margarida Maria Alacoque nasceu em uma família rica da Borgonha, em 22 de julho de 1647. Seus pais eram católicos fervorosos, mas não o suficiente para permitir que uma de suas filhas se tornasse freira. No entanto, aos cinco anos, Margarida consagrou-se ao Senhor com um voto de castidade. Aos 24 anos, vencendo a resistência dos pais, pôde entrar na Ordem da Visitação fundada por São Francisco de Sales.

Zombada pelas irmãs

Margarida, ao fazer seus votos, acrescentou o nome de Maria por causa das visões que tinha. No entanto, rumores estão circulando, e muitas das freiras e suas superiores não acreditam nela ou até mesmo zombam dela, sugerindo que ela está doente ou louca. Entre as Visitandinas, porém, permanecerá por mais de vinte anos experimentando graças extraordinárias, mas também enormes penitências e mortificações que sempre enfrentará com um sorriso.

Um bom diretor espiritual

Caberá ao seu pai espiritual, o jesuíta Claude de la Colombière, reconhecer nela o carisma dos santos. Ele ordenar-lhe que relate suas experiências místicas no que será sua autobiografia, que chegou até nós. A princípio, ela resiste, depois, por obediência, ela concorda. Enquanto escrevia, continuava convencida de que estava fazendo isso apenas para si mesma, não percebeu o valor do que seria contando naquelas páginas.

“Meu coração se expandirá para espalhar abundantemente os frutos de seu amor sobre aqueles que me honram.”  (Santa Margarida Maria Alacoque)

O Sagrado Coração de Jesus

A partir de 1673, Santa Margarida Maria Alacoque começou a receber visitas de Jesus que lhe pedia uma devoção particular ao Seu Sagrado Coração, que lhe aparecia “radiante como um sol, com uma chaga adorável, rodeada de espinhos e encimado por uma cruz, deitado sobre uma trono de espinhos”. De sua história, emergirá a iconografia que conhecemos hoje. Pelo seu empenho à instituição da festa litúrgica do Sagrado Coração de Jesus, marcada para o oitavo dia depois do Corpus Christi, a freira também recebe uma grande promessa de Jesus: quem comungasse por nove meses consecutivos, na primeira sexta-feira do mês, receberia o dom da penitência final, ou seja, morrer recebendo os sacramentos e sem pecado. Jesus também pede que ela apele ao rei da França Luís XIV para consagrar o país ao Sagrado Coração, mas a santa não obtém resposta do soberano.

Páscoa

Jesus aparece a Santa Margarida Maria Alacoque por 17 anos, até o dia de sua morte, quando voltará a tomá-la pela mão. Ele a chama de “discípula amada”, comunica-lhe os segredos de seu coração e a torna participante da ciência do amor. Margarida Maria faleceu em 17 de outubro de 1690; graças a ela, no bairro de Montmartre, em Paris, entre 1875 e 1914, foi construído um santuário dedicado ao Sacre Coeur, consagrado em 1919. Beatificada por Pio IX, em 1864, foi canonizada por Bento XV em 1920.

Minha oração

“Assim como encontraste o coração de Jesus em tuas orações, dai a nós o mesmo privilégio e união com Ele, o mesmo amor que tivestes ao nosso redentor. Nesse Coração Santo, encontremos misericórdia e virtudes para nós, expiação dos pecados para os afastados de Deus. Amém!”

Santa Margarida Maria Alacoque, rogai por nós!

Outros santos e beatos celebrados em 16 de outubro

  • Santa Edviges, religiosa, natural da Baviera e duquesa da Silésia. († 1243)
  • Em Jerusalém, a comemoração de São Longinos, venerado como o soldado que abriu com a lança o lado do Senhor pregado na cruz.
  • Na região de Toul, na França, Santo Elífio, que é venerado como mártir. († s. IV)
  • Comemoração dos santos Martiniano e Saturiano, mártires na África Setentrional, com dois irmãos seus, que, tinham sido convertidos à fé de Cristo por Santa Máxima, virgem. († s. V)
  • No território de Limoges, na Aquitânia, França, os santos Amando e seu discípulo São Juniano, eremitas. († s. VI)
  • Perto de Arbon, na Germânia, atualmente na Suíça, São Galo, presbítero e monge. († 645)
  • Em Noyon, na Nêustria, hoje na França, São Mumolino, bispo. († c. 680)
  • No mosteiro de Heresfeld, na Francónia da Germânia, na Alemanha, São Lulo, bispo de Mogúncia. († 786)
  • No território de Retz, perto de Nantes, na Bretanha Menor, hoje na França, São Vital, eremita. († s. VIII)
  • No território de Mirepoix, junto aos Pireneus, na Gália, França, São Gauderico, agricultor, insigne pela sua devoção a Mãe de Deus. († c. 900)
  • Em Brioude, na região dos Arvenos, na Aquitânia, na França, Santa Bonita, virgem. († s. IX/XI)
  • Em Pamiers, junto aos Pireneus, na França, Santo Anastásio, monge. († c. 1085)
  • Em Cominges, junto aos Pireneus, na França, São Beltrão, bispo. († c. 1123)
  • No mosteiro de Igny, na região de Reims, igualmente na França, o passamento do Beato Gerardo de Claraval, abade. († 1177)
  • Em Materdómini, na Campânia, São Gerardo Majella, religioso da Congregação do Santíssimo Redentor. († 1755)
  • Em Madrid, na Espanha, os Beato Jesus Villaverde Andrés, presbítero da Ordem dos Pregadores e mártir. († 1936)
  • No campo de concentração de Auschwitz, os beatos Aniceto Koplinski, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, e José Jankowski, da Sociedade do Apostolado Católico, presbíteros e mártires. († 1941)
  • Em Ramapuram, localidade de Palai, na Índia, o Beato Agostinho Thevarparampil “Kunjachan”, presbítero. († 1973)

Na Igreja sinodal, o Evangelho foge de toda estática

A Igreja sinodal, para realizar sua missão, precisa estar enraizada “em um lugar concreto, em um contexto, em uma cultura”, advertiu Maria Inázia Angelini aos participantes da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada na Aula Paulo VI do Vaticano de 2 a 27 de outubro de 2024.

Evitando toda estática

Na meditação que precedeu o início da reflexão sobre o Módulo dos Lugares, a monja beneditina recordou a condição dos primeiros cristãos, como “estrangeiros residentes”, afirmando que “se o lugar da Igreja é sempre um espaço-tempo concreto de encontro, o caminho do Evangelho no mundo vai de limiar em limiar: foge de toda estática, mas também de toda ‘santa aliança’ com os contextos culturais da época. Ele habita neles e é guiado por seu Princípio vital – o Espírito do Senhor – para transcendê-los”.

Uma dinâmica já presente no “não está aqui” da ressurreição e na vida da primeira Igreja, cujos membros, “as proporções da cruz de Jesus os protegem imediatamente de se enredarem em culturas sedentárias e idólatras. Em sabedorias achatadas sobre a dinâmica da autossalvação”. A partir daí, “a memória das palavras de Jesus também exorta a Igreja de hoje a se enraizar em todas as partes da humanidade, mas a torna vigilante com relação a toda homologação”. O desafio, de acordo com o Instrumentum Laboris da Segunda Sessão, é “superar uma visão estática dos lugares”, ressaltou a religiosa, “mesmo os mais sagrados, mesmo os mais populares”.

Banquetes na Bíblia

Em suas palavras, Angelini refletiu sobre os banquetes, o banquete universal de Isaías e aquele em que, no encontro com o fariseu, Jesus mostra sua abertura ao diálogo com aqueles que são diferentes. Isso “porque a diferença ilumina e discerne a autenticidade dos lugares”. Jesus ama os banquetes, afirmou ela, porque “para Jesus, a mesa humana é um ‘lugar’ de encontro no caminho, e um lugar arriscado de verdade”. Nas palavras da beneditina, a mesa é “um lugar do humano onde a itinerância constitutiva da proclamação encontra uma parada necessária; onde os relacionamentos têm suas raízes; um ‘lugar’ altamente simbólico onde a fome é desnudada e compartilhada de baixo para cima, mas também um lugar onde as hipocrisias ocultas são expostas”.

Para Jesus, o lugar é onde o homem passa fome, pois ali “o Evangelho da verdade pode ser anunciado”. Portanto, “a Igreja Sinodal é – sempre – desafiada a redescobrir esses lugares”, enfatizou. É no lugar radical do humano que Jesus inaugura a relação generativa, o lugar para dizer Deus. Mas ele também advertiu contra “os banquetes inspirados na lógica mercenária e o protagonismo que se aproveita do outro em necessidade”, que é comum hoje em dia. Jesus busca “uma ética da interioridade e da autenticidade, e a rejeição de todo ritualismo vão”.

Para Angelini, “a duplicidade de coração contradiz radicalmente a coexistência das diferenças”, afirmando que “o diálogo com as culturas implica discernimentos arriscados, raramente aplaudidos”. A religiosa advertiu contra “a hipocrisia que tanto desanima as novas gerações”, sobre “culturas de aparência, que não saciam, na realidade, ao contrário, nos matam de fome”. Diante disso, fez um apelo para promover o estilo de Deus, para reunir os outros, em uma interioridade regenerada, e a partir daí, hoje, “redescobrir a fecundidade dos lugares onde podemos compartilhar a fome e a esperança humilde e tenaz”, buscando a fraternidade, “na mesa onde todos podem desfrutar, na mesa onde podem extrair e transmitir o Dom que nos torna um dom para os outros”, concluiu.

Necessidade de uma Igreja enraizada

Por sua vez, o relator geral do Sínodo, Cardeal Hollerich, lembrou que este módulo fala da “concretude dos contextos nos quais as relações são encarnadas, com sua variedade, pluralidade e interconexão, e com seu enraizamento no fundamento nascente da profissão de fé”, citando o Instrumentum Laboris. Para o cardeal de Luxemburgo, citando o mesmo texto, “a Igreja não pode ser compreendida sem estar enraizada em um lugar e em uma cultura”, defendendo a concretude, o enraizamento, refletindo sobre as redes de relacionamentos, marcadas pelo ambiente digital.

Nessa perspectiva, refletiu sobre “as relações que se estabelecem entre lugares e culturas”, o que leva a abordar a comunhão, os vários âmbitos de relacionamento entre igrejas, a troca de dons, e dentro das igrejas locais, explicitando elementos presentes no Instrumentum Laboris. Hollerich lembrou o propósito do Sínodo: “o Santo Padre nos chamou aqui para ouvir nossos conselhos sobre como tornar seu serviço e o da Cúria Romana mais eficazes hoje”, insistindo que “ele tem o direito de saber o que realmente pensamos, a partir da vida e das necessidades do Povo de Deus nos lugares de onde viemos”.

Um Módulo que “atravessa e questiona a experiência vivida por aqueles de nós que estão aqui”, afirmou. Hollerich recordou o que foi vivido na Aula Paulo VI, onde os participantes da Assembleia Sinodal “viveram uma experiência rica e intensa”, mas também não isenta de “privações e dificuldades”, que “leva a um encontro com o Senhor e faz surgir a alegria do Evangelho”. Para que isso não permaneça um privilégio dos participantes, ele nos convidou a “nos perguntarmos quais são os caminhos, as formas, também organizacionais e institucionais, para que a riqueza da experiência que vivemos aqui, neste lugar, possa ser acessível a todo o Povo de Deus, e não apenas através de nossa história, mas também através da renovação de nossas Igrejas”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Cardeal Steiner A Assembleia Sinodal “nos ajuda a acreditar cada vez mais na forma sinodal de nossa Igreja”

A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade iniciou nesta terça-feira a reflexão sobre o último módulo, o dos Lugares. Como de costume, os jornalistas conheceram os passos dados nas últimas horas, um resumo que é relatado pela secretária da Comissão de Comunicação do Sínodo, Sheila Pires, e pelo prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini.

Destaques do dia

Sheila Pires fez um breve relato dos principais pontos da meditação de Madre Maria Inazia Angelini e da apresentação do Módulo dos Lugares feita pelo Cardeal Hollerich. Paolo Ruffini, por sua vez, referiu-se ao trabalho realizado nos círculos menores, lembrando que o Cardeal Krajewski e o Cardeal Steiner participaram na manhã desta terça-feira da celebração do funeral de um sem-teto brasileiro, que morreu sob a colunata da Praça de São Pedro, conhecido como o anjo, que dava indicações aos turistas e não pedia dinheiro, mas cadernos para escrever poemas. Seu sonho, lembrou o prefeito, era ir a Jerusalém e agora ele está na Jerusalém celestial. Entre as reflexões na Sala Sinodal, ele destacou o tema dos lugares físicos e digitais, as discussões sobre como viver de forma dinâmica nas grandes cidades.

Oração, retiro e conversas

Na ocasião, os convidados foram o Arcebispo de Manaus, Cardeal Leonardo Steiner, o Arcebispo de Turim, que será criado Cardeal no consistório do dia 7 de dezembro, Dom Roberto Repole, e a Irmã Nirmala Alex Nazareth, Superiora Geral das Irmãs do Carmelo Apostólico. A religiosa expressou sua alegria em participar do Sínodo, ressaltando que há grandes diferenças entre a Primeira Sessão da Assembleia e esta Segunda Sessão. Para ela, são importantes a oração, o retiro e as conversas em torno das mesas, que “nos mostraram uma enorme riqueza em relação à diversidade”, algo presente na Índia.

As reflexões têm se tornado cada vez mais interessantes, disse ela, questionando como os participantes se colocarão na Igreja e na sociedade quando voltarem para casa. Ela lembrou as palavras de Madre Teresa de Calcutá, que fala sobre encontrar a graça de Deus e seguir Seu caminho de discernimento. Isso porque “o Senhor tem um plano para cada um de nós”, já que as coisas não são como queremos que sejam. Olhando para o futuro, ela expressou suas esperanças, pois esse caminho não pode nos levar para trás, “nós iremos adiante se formos capazes de guiar nossas comunidades”, sua congregação no caso dela. Finalmente, ela destacou a importância da “oração pessoal para entender o convite de Deus para mim nessa jornada sinodal”.

Uma experiencia riquíssima de ser Igreja

“A experiencia do Sínodo é uma experiencia riquíssima de ser Igreja”, afirmou o cardeal Steiner, que agradeceu ao Papa Francisco por “ter nos induzido nesse caminho, o caminho da sinodalidade”. O arcebispo de Manaus ressaltou que na Segunda Sessão ele participa de grupos de língua italiana, com uma grande diversidade de culturas, um grande enriquecimento, que “abre o horizonte de compreensão da sinodalidade”.

“Vamos percebendo cada vez mais que sinodalidade é um modo de ser Igreja para anunciar juntos o Reino de Deus, o evangelho, Jesus crucificado e ressuscitado, a plenitude do Reino de Deus. Esse modo, devagar vai sendo construído, porque sinodalidade é um caminho, um colocar-se a caminho, um pôr-se a caminho, e é o que estamos experimentando no Sínodo. Depois do Sínodo é que continuaremos esses processos nas nossas comunidades, nas nossas dioceses”, sublinhou o cardeal Steiner.

Reconhecendo que várias Igrejas já estão no caminho da sinodalidade, o arcebispo de Manaus disse que “o Sínodo está abrindo o leque de compreensão para sermos cada vez mais uma Igreja sinodal”. Ele destacou a rica participação do laicato na região amazônica, sobretudo das mulheres, sua liderança nas comunidades, o fato de ser realizadas as assembleias, com participação de todos, se fala livremente, se discute livremente, se reza juntos, mas também se decide juntos as linhas pastorais”, destacou.

A experiencia feita na Assembleia, “nos ajuda a acreditar cada vez mais no jeito de ser sinodal da nossa Igreja”. Igualmente destacou que a sinodalidade nos chama a uma maior abertura com relação à interculturalidade e à inter religiosidade, para que o evangelho seja cada vez mais inculturado, algo pedido pelo Papa Francisco em Querida Amazônia. Finalmente, falando sobre o Módulo dos Lugares, destacou elementos muito interessantes: “qual é o lugar da conferência episcopal, qual é o lugar dos pobres, qual é o lugar dos migrantes”, o que ajuda a aprofundar nos lugares, “que não são apenas os lugares já definidos, mas os lugares onde devagarinho vamos experimentando o Reino de Deus, mas também recebendo elementos qe nos ajudem a viver cada vez mais o Evangelho, o Reino de Deus”.

Oportunidade para compreender a catolicidade da Igreja

Dom Repole iniciou seu discurso recordando a arquidiocese de Turim, mostrando o que está vivenciando em sua Igreja local, em uma fase singular, retomando com mais entusiasmo o anúncio do Evangelho na cultura atual. Nessa perspectiva, ressaltou a importância de preservar todos os carismas que fazem parte da Igreja de Turim. A participação no Sínodo foi considerada por ele uma graça, identificando o que experimentou em Turim e no Sínodo. Destacou a conversa espiritual como algo que leva a buscar a voz do Espírito através da voz do irmão e da irmã. Daí a importância de momentos de silêncio e reflexão para relançar a conversa no Espírito.

O cardeal recém-nomeado se referiu à maior familiaridade com os outros membros neste ano, vendo isso como um exercício de sinodalidade na prática; na Assembleia Sinodal, a sinodalidade é vivida, descobrindo que o Espírito pode falar através do outro. Da mesma forma, a Assembleia é uma oportunidade para compreender a catolicidade da Igreja, a riqueza de ver que a Igreja é verdadeiramente católica, que respira com todas as culturas e oferece o Evangelho a todas as culturas. Junto com isso, a importância dos fóruns teológicos pastorais organizados este ano, que nos mostram que a sinodalidade tem a ver com uma maneira de viver juntos.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Santa Teresa d’Ávila, a grande doutora da oração

Origens

Segunda filha de um judeu convertido, Santa Teresa de Ávila (também conhecida como Santa Teresa de Jesus), Teresa Sánchez de Cepeda Dávila y Ahumada, nasceu em Ávila (Castela), em 28 de março de 1515. A infância feliz, passada junto com irmãos e primos, a deixa fascinada por romances de cavalaria. Após a morte, em batalha, de seu irmão mais velho, Giovanni, em 1524, e a perda de sua mãe, Beatrice, a jovem foi enviada para estudar no mosteiro agostiniano de Nossa Senhora da Graça. Ali, foi atingida por uma primeira crise existencial.

Fuga para o Carmelo

Após uma grave doença, regressa à casa do pai, onde assiste à partida do seu querido irmão Rodrigo para as colônias espanholas no ultramar. Em 1536, foi atingida pela chamada “grande crise” e amadureceu a firme decisão de entrar no mosteiro com os Carmelitas da Encarnação de Ávila. Mas o pai se recusa e Teresa foge de casa. Acolhida pelas freiras, chegou à profissão em 3 de novembro de 1537.

Embates na saúde

Sua saúde logo se deteriora novamente. Apesar do consequente retorno à família, o caso é julgado desesperador.  Santa Teresa D’Ávila é levada de volta ao convento onde as freiras começam a preparar seu funeral. Inexplicavelmente, porém, em poucos dias, a paciente volta à vida. Parcialmente liberta dos compromissos da vida de clausura, devido à convalescença.  

“Morro filha da Igreja”  (Santa Teresa D’Ávila) 

Mulher da mística

De carácter alegre, amante da música, da poesia, da leitura e da escrita, vai tecer uma densa rede de amizades, polarizando em torno de si várias pessoas desejosas de a conhecer. Mas em breve ela perceberá esses encontros como motivos de distração da tarefa principal da oração e experimentará sua “segunda conversão”: “Meus olhos caíram sobre uma imagem … Ela representava Nosso Senhor coberto de feridas. Assim que olhei para ela, me senti todo emocionado… Me joguei aos pés d’Ele em prantos e implorei que me desse forças para não mais ofendê-Lo”. 

As visões e êxtases representam o capítulo mais misterioso e interessante da vida de Santa Teresa de Ávila. Na Autobiografia (escrita por ordem do bispo) e em outros textos e cartas, descreve as várias etapas das manifestações divinas, visuais e auditivas. Ela é vista levitando, desmaiando e permanecendo morta (é assim que Bernini a retratará por volta de 1650, na estátua de S. Maria Della Vittoria em Roma). Essas manifestações correspondem a um grande crescimento espiritual, que Teresa, naturalmente trazida à escrita e à poesia, vai derramar em seus textos místicos, entre os mais claros, poderosos, poéticos já escritos.

Reforma do Carmelo

Não compreendida nesta sua intensa espiritualidade e considerada por alguns dos seus confessores até vítima de ilusões demoníacas, é apoiada pelo jesuíta Francesco Borgia e pelo frade franciscano Pietro d’Alcántara, que dissiparão as dúvidas dos seus acusadores. Teresa sente que deve refundar o Carmelo para remediar uma certa desorganização interna. Em 1566, o Superior Geral da Ordem autorizou-o a fundar vários mosteiros em Castela, incluindo dois conventos de Carmelitas Descalços. Assim, surgem os conventos em Medina, Malagon e Valladolid (1568); Toledo e Pastrana (1569); Salamanca (1570); Alba de Tormes (1571); Segóvia, Beas e Sevilha (1574); Sória (1581); Burgos (1582), entre outros.

Santa Teresa  D’ Ávila: Fundadora e Amiga de João da Cruz 

Amizade com João da Cruz

Decisivo, em 1567, foi o encontro entre Santa Teresa  D’ Ávila e um jovem estudante de Salamanca, recém ordenado sacerdote: com o nome de João da Cruz, o jovem assumiu a roupagem do Scalzi e acompanhou o fundador em suas viagens . Juntos, eles superaram vários eventos dolorosos, incluindo divisões dentro da ordem e até acusações de heresia. Eventualmente Santa Teresa  D’ Ávila prevalecerá com o nascimento da ordem reformada dos Carmelitas e Carmelitas Descalços.

Páscoa

A obra mais famosa de Teresa é certamente “O Castelo Interior”, um itinerário da alma em busca de Deus, por meio de sete passagens particulares de elevação, ladeadas pelo Caminho da Perfeição e pelos Fundamentos, bem como por muitas máximas, poemas e orações. Incansável apesar de sua saúde precária, Santa Teresa D’Ávila morreu em Alba de Tormes em 1582, durante uma de suas viagens.

Síntese

Virgem e doutora da Igreja: ingressou na Ordem Carmelita em Ávila na Espanha e tornou-se mãe e mestra de uma observância muito rigorosa, preparou em seu coração um caminho de aperfeiçoamento espiritual sob o aspecto de uma ascensão gradual da alma a Deus ; para a reforma de sua Ordem suportou muitas tribulações, que sempre superou com um espírito invencível; também escreveu livros imbuídos de elevada doutrina e carregados de sua profunda experiência.  Canonizada em 12 de março de 1622, pelo Papa Gregório XV.

Minha oração

“Ó doutora da oração, ensinai àqueles que te procuram uma vida verdadeiramente contemplativa que alcança a cada um em sua própria realidade. Convocai as almas para se entregarem verdadeiramente na intercessão, assim como novas vocações carmelitas. Que, através da oração, possamos encontrar a vontade de Deus. Amém.”

Santa Teresa de Jesus, rogai por nós!

Outros santos e beatos celebrados em 15 de outubro:

  • Em Edessa, na Síria, hoje Sanliurfa, na Turquia, a comemoração de São Barsés, bispo. († 379)
  • Em Tréveris, na Gália Bélgica, atualmente na Alemanha, São Severo, bispo. († s. V)
  • Em Kitzingen, na Germânia, na atual Alemanha, Santa Tecla, abadessa. († c. 790)
  • No mosteiro de Trebnitz, na Silésia, hoje na Polónia, o dia natal de Santa Edviges, religiosa, cuja memória se celebra amanhã. († 1243)
  • Em Torres Vedras, cidade de Portugal, o Beato Gonçalo de Lagos, cuja memória se celebra em Portugal no dia vinte e sete de Outubro. († 1422)
  • Em Hiji, no Japão, o Beato Baltasar Kagayama Hanzaemon e seu filho Tiago, mártires. († 1619)
  • Em Nagasaki, também no Japão, Santa Madalena, virgem e mártir. († 1634)
  • Em Valência, na Espanha, o Beato Narciso Basté Basté, presbítero da Companhia de Jesus e mártir. († 1936)
  • Em Barajas, perto de Madrid, também na Espanha, o Beato Cipriano Alguacil Torredenaida, religioso da Ordem dos Pregadores e mártir.  (†1936)

Liliana Franco: “As experiências sinodais são laboratórios para um serviço melhor”

Os processos de escuta têm sido um elemento importante no caminho da Igreja nos últimos anos. Na América Latina e no Caribe, isso foi levado em conta, especialmente desde o Sínodo para a Amazônia, algo que posteriormente foi aprofundado com a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe e o atual processo sinodal. A irmã Liliana Franco, presidente da Confederação de Religiosos e Religiosas da América Latina (CLAR), participou dos dois sínodos e da assembleia eclesial.

A escuta é transversal

De acordo com a religiosa colombiana, presente na Sala Stampa do Vaticano, “esses dois últimos sínodos, incluindo o Sínodo sobre a Juventude, e essas experiências que estamos tendo nos diferentes continentes nos mostram a importância da escuta como parte transversal de qualquer processo de humanização”. Em relação ao Sínodo da Amazônia, a presidenta da CLAR lembrou que “o Sínodo da Amazônia já afirmava com muita força que a escuta leva à conversão, que realmente o que tem o poder de gerar transformação, de modificar atitudes e estruturas é a escuta, a escuta de Deus e a escuta dos territórios, da realidade”.

Algo em que “estamos nos capacitando, que todas essas experiências sinodais acabam sendo como laboratórios que nos capacitam para um melhor serviço”, afirmou Liliana Franco. A religiosa insistiu que “temos muito a aprender, na Igreja e na sociedade, porque muitas vezes todos os seres humanos vamos com nossos próprios monólogos, ideias, paradigmas das coisas”. Diante dessas situações, a religiosa acredita que “a escuta está se posicionando como o caminho, como a maneira de entender a narrativa do que Deus tem a dizer a nós, seres humanos”.

Escutar para se aproximar de Deus

A escuta, reforçou a presidenta da CLAR, “é a possibilidade de se aproximar e de se aproximar com mais serenidade, com mais sinceridade e com mais reverência da vontade de Deus”. Escutar porque “realmente nos transforma, nos converte”, algo que ela considera um processo de aprendizagem. Uma realidade sobre a qual algumas igrejas locais ou continentais têm maior experiência, lembrando que “se exercitaram mais repetidamente nesses processos de escuta e fizeram da escuta uma atitude vital”.

Diante dessa dinâmica de escuta, afirmou que “como toda a Igreja, temos o grande desafio de entender que esse é o caminho da conversão para nós, e até mesmo o caminho da credibilidade em tempos complexos como os que vivemos, tanto como Igreja quanto como sociedade”.

Cultura do cuidado

Em resposta a uma pergunta sobre o abuso a religiosas, a presidente da CLAR afirmou que “na Igreja nos acostumamos a viver em meio a relações rígidas, a estilos que excluem, a nacionalismos que excluem”. Diante dessa situação, Liliana Franco vê como um grande desafio “purificar as relações para tornar possível essa cultura do cuidado”. Esta é uma questão que a Vida Consagrada em todo o mundo está levando a sério, afirmou. Neste sentido, falando sobre o continente latino-americano e caribenho, assinalou que “temos realizado processos muito claros com os 150.000 religiosos da América Latina e do Caribe que nos permitem revisar nossos modos relacionais, que o que somos e o que fazemos é abusivo, porque não abre espaço para a diferença, porque não é inclusivo”.

“Todos nós, na Igreja, estamos em um processo de revisão de nossos modos relacionais, que claramente não são coerentes com o modo de Jesus e que requerem conversão”, afirmou. A partir daí, ela continuou dizendo que “a vida religiosa feminina não está à margem disso, tanto para revisar suas próprias formas de se relacionar, porque às vezes dentro das comunidades e congregações pode haver formas que não são vividas e assumidas a partir de uma cultura saudável de cuidado, como também para reconhecer formas que vêm de fora e que violam as possibilidades, os direitos ou a dignidade das mulheres consagradas”.

A religiosa enfatizou que “este processo sinodal nos coloca frente a frente com a revisão necessária e uma opção”. Nesse sentido, destacou que “a opção que este processo está colocando no coração de toda a Igreja é a opção pela cultura do cuidado, por uma forma de nos relacionarmos uns com os outros que seja mais semelhante à forma de Jesus”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1