Segunda Sessão da Assembleia Sinodal: “Sinodalidade significa que todos se sentem em casa”

A Assembleia Sinodal continua recheada de temas a serem tratados, algo que se torna conhecido todos os dias nas coletivas de imprensa, nas quais alguns dos membros da assembleia vêm à Sala Stampa do Vaticano para compartilhar suas impressões sobre o que estão vivenciando no salão sinodal.

Além dos habituais Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para a Comunicação, e Sheila Pires, Secretária da Comissão para a Comunicaçãodia também contou com a presença do Bispo de Kalookan (Filipinas), dom Pablo Virgílio David, Dom Launay Saturné, arcebispo de Cap Haïtien (Haiti), Dom Mounir Khairallah, bispo de Batrun dos Maronitas (Líbano), e a teóloga Catherine Clifford, professora da St. Paul University em Ottawa (Canadá). Todos eles coordenados por Cristiane Murray, vice-diretora da Sala Stampa.

Elementos abordados na sala de aula sinodal

Como de costume, foram revelados os elementos fundamentais presentes na manhã e na tarde anterior, um trabalho realizado por Pires e Ruffini. O prefeito do dicastério para a comunicação destacou como importante a intervenção do cardeal Grech, secretário do Sínodo, que anunciou a necessidade de a Assembleia entrar em diálogo com os 10 grupos de estudo criados pelo Papa, o que foi aprovado com 265 votos a favor e 74 contra. O trabalho nas últimas horas foi realizado em círculos menores, que elaboram relatórios a serem entregues à Secretaria do Sínodo, onde são coletados os pontos a favor e o que precisa ser aprofundado, para os quais deve ser sugerido o que e como fazer isso. Ele também se referiu à oração do Rosário neste domingo em Santa Maria Maggiore, onde o Papa invocará a Paz, e ao Dia de Oração e Jejum na segunda-feira, dia 7.

Tópicos mais relevantes

Quanto aos temas, Sheila Pires lembrou o desejo de alguns membros de que o Sínodo fizesse um apelo à paz, com passos concretos para acabar com a guerra e pôr fim às migrações forçadas, ser artesãos da paz e condenar os fundamentalismos, denunciando o tráfico de armas, causa do sofrimento mundial, porque às vezes “além de rezar, é preciso denunciar”, sublinhou.

Na assembleia, surgiu o tema dos pobres, que são os sujeitos e não os destinatários da sinodalidade, uma vez que o caminho para a salvação é frequentemente mostrado pelos últimos. O clamor da terra e dos povos também foi ouvido, assim como o fato de a caridade aparecer apenas duas vezes no Instrumentum laboris, o que não é bom, pois “a caridade e a misericórdia estão no centro da vida de todos os cristãos”. Pires lembrou que “sinodalidade significa que todos se sintam em casa, evitando formas de discriminação, ouvindo aqueles que não são ouvidos”.

Sobre o papel das mulheres, tema que voltou a ser abordado, foi enfatizado que não deve acontecer que “as mulheres que querem servir a Igreja, que tanto ajudam a Igreja e a sociedade, que são comprometidas, estejam em posições marginais”, sendo dito da necessidade de acolher a todos, “inclusive as mulheres que querem ser ordenadas sacerdotes” e outros grupos marginalizados. Também foi discutido o tema dos jovens, sujeitos e não objetos de evangelização, atraídos pelo radicalismo evangélico, que deve levar a colocar Jesus novamente no centro. O tema do ecumenismo foi abordado, e foi afirmado que “a sinodalidade é uma forma de lutar contra o clericalismo“, destacando a necessidade de alcançar as igrejas locais e de realizar sínodos diocesanos.

Importância da reunião de párocos

Entre a primeira e a segunda sessão da Assembleia, foi realizada uma consulta global com os párocos, uma solicitação do Papa, como lembrou Dom Pablo Virgílio David. Depois de participar da reunião de párocos em Roma, em maio, foi organizada uma consulta continental com os párocos, a quem o Papa pediu que fossem apóstolos da sinodalidade, e o progresso da sinodalidade em cada conferência. Sobre a migração dos filipinos, primeiro das áreas rurais para as cidades locais, especialmente Manila, e depois para fora das Filipinas, ele disse que isso é visto como um desafio, já que os migrantes, mesmo dentro do país, são vistos como uma ameaça, o que levou a Igreja filipina a fazer missão entre eles e, assim, estar no meio dos mais pobres, nas periferias, um termo que não era bem conhecido nas Filipinas, mas que o processo sinodal tem ajudado a compreender.

Preparando a Assembleia Sinodal em meio a dificuldades

A preparação para a Primeira Sessão foi muito difícil no Haiti, segundo Dom Launay Saturné, dada a grave situação social de insegurança, com falta de respeito à dignidade da pessoa, o que leva a constantes massacres, diante dos quais as autoridades nada fazem, denunciou o bispo. Isso faz com que as pessoas fujam, o que dificulta a missão da Igreja, dada a violência dos grupos armados, que inclusive impede o acesso à educação. Apesar de tudo, a Igreja fez todo o possível para se preparar para a Assembleia Sinodal, buscando, por meio da formação e da catequese, transmitir os valores que tornam possível a democracia, e pedindo, como Conferência Episcopal, que as autoridades realizem a transição, algo que está parado há muitos anos. A Igreja pede à população que colabore para alcançar a paz e a segurança, destacando o apoio constante do Papa e agradecendo sua proximidade.

Um país que rejeita a linguagem do ódio e da vingança

O Líbano está em guerra desde 1975 e, 50 anos depois, não se quer reconhecer que se trata de uma guerra imposta. Um país que, nas palavras do bispo maronita Mounir Khairallah, é “uma mensagem de paz e deve continuar sendo uma mensagem de paz, no único país do Oriente Médio onde há coexistência pacífica entre cristãos, judeus e muçulmanos”. O bispo, cuja vida foi profundamente marcada pela violência desde que seus pais foram brutalmente assassinados quando ele tinha cinco anos de idade, diz que no Líbano “queremos construir a paz e somos capazes de fazê-lo“, em um país cuja população rejeita a linguagem do ódio e da vingança.

Um clima de grande abertura

O clima é muito diferente na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal, observou Catherine Clifford, que relembrou o trabalho realizado no Canadá, quando trabalharam juntos para refletir sobre o Relatório de Síntese. Sobre a primeira semana, ela disse que muito progresso foi feito, destacando a importância da oração, as conversas sobre o processo sinodal e o clima de grande abertura, que faz com que se sinta “a liberdade que nos permite caminhar em direção a questões importantes“. Ele vê os passos dados durante esses dias como “um marco de referência para abordar questões práticas”.

Em sua partilha, a teóloga canadense destacou a questão das igrejas locais como fundamental, “é importante ouvir as histórias das igrejas locais e aprender umas com as outras“. Ela também destacou o aumento da presença de delegados ecumênicos fraternos, que contribuem para a conversa de forma muito profunda e sábia, sentem-se em casa e percebem que também haverá repercussões para suas igrejas. Por fim, Clifford disse que “há uma série de questões que nossas igrejas precisam abordar, mas precisamos fazê-lo juntos, porque isso dará mais frutos”, ressaltando a importância do trabalho dos teólogos nesta Segunda Sessão.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Metodologia sinodal: Oferecer ao Papa orientações sobre como ser uma Igreja sinodal em missão

O Instrumentum laboris marca a metodologia de trabalho das assembleias sinodais, algo que não é diferente na Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que está sendo realizada de 2 a 27 de outubro de 2024, na Sala Paulo VI do Vaticano, com a participação de mais de 350 membros, aos quais se juntam outros participantes que fazem parte de diferentes equipes.

Ser Igreja sinodal em missão

Parte-se da pergunta que orienta o desenvolvimento desta Segunda Sessão: “Como ser uma Igreja sinodal em missão?”. O propósito é descobrir como concretizar a identidade do Povo de Deus sinodal em missão nas relações, itinerários e lugares onde se desenvolve a vida da Igreja. Quer que esta proposta possa chegar aonde se vive a sinodalidade, às comunidades, paróquias, dioceses, pastorais, movimentos… Por isso é tão importante que todos possam enviar contribuições, observações, propostas, através da Secretaria do Sínodo, para avançar no caminho sinodal.

Essa possibilidade, que é fundamental para o processo avançar, não deve ter sido fácil. Os medos de escutar, de ser a Igreja sinodal, de ser aquela Igreja de todos, todos, todos, da qual Francisco fala constantemente, sempre aparecem. Mas é bom lembrar as palavras de Pedro Casaldáliga, que dizia que o medo é contrário à fé. Vem à minha cabeça a música de Gilberto Gil: ” Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá’”. O medo excessivo nos leva a buscar seguranças que sacrificam a vida, que matam o Espírito, e não esqueçamos que, na metodologia da Assembleia Sinodal, a conversa no Espírito é elemento protagonista.

Fundamentos de uma Igreja sinodal missionária

Os Fundamentos não pretendem ser “um tratado sinodal”, afirmou o arcebispo de Luxemburgo e relator geral do Sínodo, o cardeal Jean Claude Hollerich, ao começar a abordar esta parte. Nas suas palavras, ele citava o próprio Instrumentum laboris, que diz que esta seção “tenta delinear os fundamentos da visão de uma Igreja sinodal missionária, convidando-nos a aprofundar a compreensão do mistério da Igreja”.

Nesta dinâmica processual, algo de grande importância no pensamento de Francisco e no caminho sinodal, o Instrumento de trabalho, neste primeiro momento, recolhe “a consciência que nestes anos foi se consolidando e em particular as convergências que no ano passado reconhecemos e expressamos no Relatório de Síntese”. Daí que o caminho a seguir não deve procurar “reabrir o debate sobre o que já aprovamos no ano passado, mas tomar o tempo necessário para nos apropriarmos dela e nos situarmos dentro de um horizonte”.

Sintonizar com o método de trabalho

Para isso, os Fundamentos oferecem “a oportunidade de nos sintonizarmos com o método de trabalho”, dado que “as coisas não funcionam exatamente como no ano passado”, embora seja verdade que permanecem as linhas fundamentais propostas na Primeira Sessão. Insiste-se na sinodalidade como modo de ser Igreja e na necessidade de implementá-la, na missão, em ser uma Igreja misericordiosa, aberta a todos, com protagonismo laical e feminino cada vez maior.

Depois serão abordados os relacionamentos, itinerários e lugares, procurando discernir os pontos fortes e as questões a explorar em relação ao que propõe o Instrumentum laboris para responder à pergunta orientadora da Assembleia. Quer-se debater, emendar e aprovar um documento que ofereça ao Papa Francisco algumas orientações sobre como ser uma Igreja sinodal em missão.

Importância da dinâmica a seguir

Esse documento, sob a responsabilidade do relator geral e dos secretários especiais, com o apoio dos especialistas, recolherá os materiais produzidos durante as duas sessões da Assembleia Sinodal, com particular atenção ao fruto do discernimento da Segunda Sessão. Tudo isso seguindo uma dinâmica de oração, invocação ao Espírito Santo, apresentação do rascunho do documento, reflexão pessoal, compartilhamento, debate em plenário, emendas em grupo e aprovação final.

Os Grupos de Trabalho, as famosas mesas redondas, 36 no total, com 10-11 participantes cada, são formados por línguas, 16 em inglês, 7 em italiano, 6 em francês, 6 em espanhol e uma em português, cujos trabalhos se juntam em 5 mesas linguísticas, dois em inglês, e uma em italiano, francês e espanhol-português. Um trabalho que segue o método da conversa no Espírito, com a ajuda de um facilitador e um especialista.

Conversa no Espírito

Na conversa no Espírito cada um toma a palavra a partir de sua própria experiência e oração, e escuta atentamente a contribuição dos outros. Em um segundo momento, procura-se abrir espaço para os outros e para o Outro, compartilhando a partir do que os outros disseram, o que mais ressoou nele ou o que mais resistência suscitou nele, deixando-se guiar pelo Espírito Santo.

Finalmente, é hora de construir juntos, a partir do diálogo comum, discernir e colher o fruto da conversa no Espírito: reconhecer intuições e convergências; identificar discordâncias, obstáculos e novas perguntas; deixar que surjam vozes proféticas. Por isso, é importante que todos possam se sentir representados pelo resultado do trabalho, e que todos ajam com plena liberdade.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Nossa Senhora do Rosário, o meio de alcançar almas para Deus

Origens 

A origem do Rosário é muito antiga, pois conta-se que os monges anacoretas (eremitas dos primeiros séculos do cristianismo) usavam pedrinhas para contar o número das orações vocais. Dessa forma, nos conventos medievais, os irmãos leigos dispensados da recitação do Saltério (pela pouca familiaridade com o latim), completavam suas práticas de piedade com a recitação de Pai-Nosso e, para a contagem. Doutor da Igreja São Beda, chamado de “o Venerável” (séc. VII-VIII), havia sugerido a adoção de vários grãos enfiados em um barbante.

História do Rosário 

O Santo Rosário foi sendo transformado com o decorrer dos anos, porém, no ano de 1214, a Santa Igreja o estabeleceu na forma e método que hoje é usado. Antes, as Ave-Marias não eram como agora, nem mesmo os mistérios contemplados entre outros ingredientes da oração. Sua origem se deu com a revelação divina de Nossa Senhora do Rosário a São Domingos de Gusmão, fundador dos dominicanos (O.P.). Por meio das citações referidas ao Bem-aventurado Alano de La Roche em seu livro “De Dignitate Psalterri”, São Luís Maria Grignion de Montfort relata a origem do Rosário.

São Domingos e o Rosário

A tradição espiritual conta com a revelação. São Domingos se preocupava em converter os albigenses, também conhecidos como cátaros (puros), que eram um grupo de hereges de caráter gnóstico e maniqueísta, sendo até mesmo protegida por bispos e nobres da época. Essa doutrina negava a existência de um único Deus, negava a divindade de Jesus, direcionava a salvação através do conhecimento etc.

Rosário: a chave para alcançar as almas endurecidas 

Essas realidades entraram em choque com o catolicismo. Desse modo, o santo procurava converter os heréticos e enfrentava grande resistência. Certa vez, procurou retirar-se em uma floresta para rezar e ali recebeu a orientação da Nossa Senhora do Rosário: “Querido Domingos, você sabe de que arma a Santíssima Trindade quer usar para mudar o mundo? [ … ] a principal peça de combate tem sido sempre o Saltério Angélico que é a pedra fundamental do Novo Testamento. Quero que alcances estas almas endurecidas e as conquiste para Deus, com a oração do meu Saltério” (MONTFORT, 2019, p. 42-43).

Do Saltério Angélico ao Santo Rosário

A propagação do Rosário por São Domingos

A partir dessa situação, São Domingos começou a pregar o Santo Rosário, ou como foi dito, em revelação, “Saltério Angélico”. Assim expresso, pois naquela época poucas pessoas eram alfabetizadas e não conheciam a Sagrada Escritura. Por outro lado, os monges costumavam recitar em oração os 150 Salmos, rezando a “liturgia das horas”. Desse modo, os cristãos poderiam imitar a oração e se aproximar dos mistérios de Deus ao recitar 150 Ave-Marias, conhecida como a saudação angélica já que foi dita pelos Anjos e relatava nas Escrituras. Assim, tornou-se o “Saltério Angélico” (Salmos Angélicos). 

Os Mistérios:  Gozosos, Dolorosos e Gloriosos

Em um segundo momento, ao esfriar a devoção do Saltério Angélico, em nova aparição, Nossa Senhora do Rosário apareceu ao Beato Alano (1428 – 1475) lhe pedindo que reavivasse a prática. Assim ele formou os agrupamentos de 50 Ave-Marias e seus mistérios, conhecidos como: Gozosos, Dolorosos e Gloriosos. Ela lhe disse que muitas graças e milagres seriam alcançados por meio desse modo e reafirmou os ditos a São Domingos.

A Intercessora pela Igreja do Ocidente

Intercessão de Nossa Senhora do Rosário 

Logo após, houve a batalha de Lepanto (Grécia, junto ao porto de Corinto) comandada por João da Áustria, em 7 de Outubro de 1571. O Papa Pio V procurava conter os avanços dos turcos na Europa e, antes disso, convocou os cristãos para que rezassem o rosário através da Carta Breve Consueverunt (1569). Era uma batalha extremamente importante, pois dela dependia a preservação do cristianismo e da cultura ocidental.

Instituição da Festa

Com a vitória adquirida, ele instituiu a festa de Nossa Senhora do Rosário no mesmo dia da batalha e reconheceu que a vitória veio por meio das orações do Rosário. Sendo este Papa da ordem dos dominicanos, por isso, seguiu a inspiração do fundador. O Pontífice instituiu a festa, inicialmente chamada de Santa Maria da Vitória. 

Rainha do Sacratíssimo Rosário

Festa Mariana Obrigatória

Em 1573, o Papa Gregório XIII tornou a festa mariana obrigatória para a diocese de Roma e para as Confrarias do Santo Rosário, sob o título de Santíssimo Rosário da Bem-aventurada Virgem Maria. Em 1716, o Papa Clemente XI inscreveu a festa no calendário romano, estendendo-se para toda a Igreja. A celebração ocorria em datas diferentes, conforme os costumes locais. O Papa Leão XIII inscreveu a invocação “Rainha do Sacratíssimo Rosário” na Ladainha Lauretana em 10 de dezembro de 1883. Em 1913, o Papa Pio X fixou a data da celebração da festa em 7 de outubro.

O Quarto Mistério

Por fim, após anos de estímulo e devoção por parte dos papas e dos santos, São João Paulo II, em sua carta “Rosarium Virginis Mariae” (2002), institui o quarto mistério. Foi reconhecido como “luminoso”. Formando, então, o Rosário com quatro terços meditando os mistérios de Cristo. Assim, deu-se o formato daquilo que se conhece atualmente por Santo Rosário.

Minha oração

“Ó Mãe do rosário, consegui junto a Jesus aquilo que não podemos, combatei por nós e consolai-nos das intempéries da vida. Entregamos a nossa existência a Ti e de Ti tudo esperamos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém!”

Nossa Senhora do Rosário, rogai por nós!

Outros santos e beatos celebrados em 07 de outubro

  • Em Cápua, na Campânia, região da Itália, São Marcelo, mártir. († s. III/IV)
  • Em Pádua, na Venécia, hoje no Vêneto, região da Itália, Santa Justina, virgem e mártir. († s. III/IV)
  • Em Betsáloe, na Augusta Eufratésia, hoje na Síria, os santos Sérgio e Baco, mártires. († s. III/IV)
  • Em Roma, São Marcos, papa, que fundou o título in Pallacinis, atual  igreja de São Marcos. († 336)
  • Em Bourges, na Aquitânia, hoje na França, Santo Augusto, presbítero e abade. († c. 560)
  • Em Saintes, também na Aquitânia, São Paládio, bispo, que erigiu uma basílica sobre o túmulo de Santo Eutrópio. († d. 596)
  • No mosteiro de Bellafuente, hoje Valparaíso, em Castela e Leão, região da Espanha, o Beato Martinho Cid, abade, que fundou este cenóbio e o agregou à Ordem Cisterciense.  († 1152)
  • Em Arima, no Japão, os beatos mártires Adrião Takahashi Mondo e sua esposa Joana TakahashiLeão Hayashida Sukeemon, sua esposa Marta Hayashida e seus filhos Madalena Hayashida e Diogo HayashidaLeão Takedomi Han’emon e seu filho Paulo Takedomi Han’emon. († 1613)
  • Ao largo de Rochefort, na França, o Beato João Hunot, presbítero e mártir.(† 1794)
  • Em Pisa, na Itália, o Beato José Toniolo, pai de família e cooperador salesiano. († 1918)
  • Em Benaguacil, localidade da província de Valência, na Espanha, o Beato José Llosá Balaguer, religioso dos Terciários Capuchinhos de Nossa Senhora das Dores e mártir. († 1936)
  • Em Sasello, perto de Savona, cidade da Itália, a Beata Clara Badano , jovem do Movimento dos Focolares. († 1990)

Santa Maria Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia

Origens 

A mística da Misericórdia nasceu no dia 25 de agosto de 1905, em Glogowiec, na Polônia Central. Faustina foi a terceira dos dez filhos do casal Stanislaus e Marianna Kowalska, que os educaram com grande disciplina espiritual. Muito pobres, só foi possível à Faustina que completasse três anos de estudos. Ela e suas irmãs tinham apenas um bom vestido que tinham de revezar para ir às missas. Todas as irmãs iam à missa, mas cada uma assistia a uma missa diferente. Ela também trabalhou de doméstica por um tempo, antes de entrar no convento. 

Juventude

Com 18 anos, a jovem Faustina disse à sua mãe que desejava ser religiosa, mas os pais não permitiram. Aos 19 anos, estava dançando em um baile, quando viu Jesus coberto de chagas parado junto a si, então, Ele lhe disse: “Até quando hei de ter paciência contigo? Até quando tu me enganarás?”. Faustina disfarçou o acontecido para que sua irmã não percebesse. Quando pôde, abandonou discretamente o baile e dirigiu-se até a Catedral de São Estanislau Kostka. Na Igreja, ela pediu ao Senhor, em oração profunda, que lhe mostrasse o caminho a ser seguido, logo escutou uma voz que lhe dizia: “Vá imediatamente a Varsóvia, lá entrarás em um convento”.

Ousadia de Santa Faustina para o encontro de Jesus

No outro dia, apenas com a roupa do corpo, decidiu sair de sua casa mesmo sem a permissão dos pais. Ela vagou de convento em convento sendo rejeitada por causa de sua baixa escolaridade e pobreza. Depois de várias semanas de busca, a Madre Superiora do convento das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia decidiu lhe dar uma chance com a condição de que pagasse pelo ingresso, o que a levou a trabalhar como doméstica por um ano, período em que fazia depósitos na conta do convento até que completasse o montante exigido. 

Entrada no Convento

Em 30 de abril de 1926, aos 20 anos, ingressou no convento adotando o nome de Maria Faustina do Santíssimo Sacramento. O nome Faustina significa abençoada, afortunada e pode ser uma referência ao mártir cristão Faustinus. Segundo conta em seus diários, poucas semanas depois de seu ingresso no convento, teve a tentação de abandoná-lo.

Da quase saída do convento ao abandono em Deus 

Chegou a procurar a Madre Superiora, porém, não encontrou-a, retirando-se então para seu dormitório. Lá teve uma visão de Jesus, com seu rosto desfigurado por conta das chagas. Ela questionou-o: “Jesus, quem te feriu tanto?”. Jesus respondeu: “Esta é a dor que me causarias se tivesses abandonado este convento. É para cá que eu te trouxe e não para outro; e tenho preparadas para ti muitas bênçãos”. Ela compreendeu que o plano de Deus para ela era que ficasse ali. O tempo que lhe sobrava dos trabalhos e obrigações passava-se em adoração ao Senhor culto no tabernáculo; d’Ele recebeu luzes especialíssimas sobre o mistério da Santíssima Trindade e as demais verdades da Fé, de forma que costumava dizer: “Ele é meu Mestre”.

Trabalhos no Convento

Neste convento, trabalhou na cozinha e como cuidadora de outras irmãs. Em abril de 1928, fez votos como freira, seus pais estiveram presentes na cerimônia. Um ano mais tarde, Faustina foi enviada a um convento de Vilnius, Lituânia, onde também trabalhou como cozinheira, ficou por pouco tempo, mas retornou ao local mais tarde, ocasião em que encontrou com Michał Sopoćko, que apoiou sua missão. Um ano depois de seu retorno de Vilnius, em maio de 1930, ela foi transferida para um convento em Płock, na Polônia, onde ficou por cerca de 5 anos.

A Primeira Revelação de Jesus 

Em 22 de fevereiro de 1931, Irmã Faustina relatou, em seus diários (diário I, sessões 47, 48 e 49), ter tido a primeira revelação de Jesus enquanto Rei da Divina Misericórdia em seu quarto. Segundo ela, Jesus apareceu vestido de branco e de seu coração emanava feixes de luz vermelho e branco. 

O pedido de Jesus para Santa Faustina 

Entre outras coisas, Jesus pediu-lhe que pintasse uma imagem sua, fiel à imagem que se mostrava a ela. A imagem deveria conter a inscrição: “Jesus, eu confio em vós”. Jesus manifestou a vontade de que esta imagem fosse venerada, primeiro, em sua capela, posteriormente, no mundo todo e solenemente no domingo que sucede ao domingo de Páscoa, Jesus ainda teria dito a ela que quem quer que venerasse tal imagem seria salvo. Por não saber pintar, Faustina solicitou ajuda das irmãs de seu convento, contudo, não recebeu nenhum auxílio. 

O Livro de suas Visões 

Em 1933, ela começou a ser dirigida pelo Padre Sopoćko, que, ao ouvir suas experiências místicas, procurou submetê-la a avaliações psiquiátricas. Depois que a Dra. Helena Maciejewska deu o parecer de sanidade, padre Sopoćko teve confiança e começou a aconselhá-la. Pediu que escrevesse um diário para registrar as mensagens que recebia e conversas que tinha com Jesus, livro que se tornou mundialmente famoso e um verdadeiro guia espiritual para as almas. 

Imagem da Divina Misericórdia

Faustina contou ao padre sobre a imagem da Divina Misericórdia, em janeiro de 1934, ele a apresentou ao artista plástico Eugene Kazimierowski, que finalizou a obra em junho desse mesmo ano. Entretanto, a imagem que tornou-se famosa no mundo inteiro foi realizada pelo pintor Adolf Hyła, feita em agradecimento pela salvação de sua família da guerra.

Terço da Divina Misericórdia

Faustina escreveu (n. 476) a respeito de uma visão envolvendo o Terço da Divina Misericórdia, o propósito das orações do terço são: obter misericórdia, confiar na misericórdia de Cristo e mostrar misericórdia para com os outros. 

Festa da Divina Misericórdia

Também relatou (n. 1044) que teve uma visão na qual a Festa da Divina Misericórdia seria celebrada na sua capela local e seria assistida por uma multidão de fiéis; e que a mesma cerimônia também teria lugar em Roma e seria conduzida pelo Papa. Em 1937, Faustina recebeu uma mensagem de Jesus com instruções sobre a Novena da Divina Misericórdia. Esse ano foi marcado pela divulgação das mensagens da Divina Misericórdia, foram impressos os primeiros cartões com a imagem da Divina Misericórdia, também foi publicado um panfleto intitulado Cristo, o Rei da Misericórdia, que incluía o terço, a novena e a litania da Divina Misericórdia.

Páscoa 

Santa Faustina sofreu muito, e por muitos anos, com a tuberculose, os dez últimos anos de sua vida foram particularmente atrozes. No dia 5 de outubro de 1938, sussurrou à irmã enfermeira: “Hoje, o Senhor me receberá”. E assim aconteceu. Foi beatificada a 18 de abril de 1993, pelo Papa João Paulo II, Santa Faustina, a “Apóstola da Divina Misericórdia”; e foi canonizada pelo mesmo Sumo Pontífice no dia 30 de abril de 2000.

Minha oração

“Querida apóstola da misericórdia, educai-nos para que vivamos da melhor maneira esse conselho evangélico, nele encontremos a misericórdia divina e sejamos misericordiosos com nossos irmãos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.”

Santa Maria Faustina Kowalska , rogai por nós!

Sinodalidade é compartilhar a água com todos, puxá-la ao seu moinho nos empobrece

Em poucas horas, a Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade nos deixou algumas reflexões, que devem nos levar a nos perguntar sobre algumas atitudes que devemos deixar para trás se quisermos ser uma Igreja sinodal, se quisermos viver a sinodalidade na prática.

Diálogos entre surdos

Fiquei impressionado com as palavras do Papa Francisco em sua homilia na missa de abertura, na qual ele advertiu sobre o perigo de “nos fechar num diálogo de surdos, onde cada um tenta ‘puxar água ao seu moinho’ sem ouvir os outros e, sobretudo, sem ouvir a voz do Senhor”. Mais uma vez, ele nos adverte sobre uma atitude que está presente em muitas pessoas, até mesmo em muitos de nós, até mesmo em mim e em você, mesmo que não sejamos capazes de reconhecê-la.

A tentativa de “levar água para o seu próprio moinho” é um sinal de que não sabemos quem é Deus, fonte de água em abundância para todos, que move a vida de todos, a água move a roda do moinho, também daqueles em quem não somos capazes de descobrir a vida que nasce deles, pois não nos esqueçamos de que Deus deposita essa vida em cada uma das criaturas.

Quando escutamos os outros e escutamos a voz do Senhor, somos enriquecidos, ainda mais quando essa escuta nasce da diversidade. Mesmo que tenhamos medo de quem é diferente, de quem pensa diferente, isso também acontece na Igreja. A diversidade é uma fonte de conhecimento, é algo que enriquece nossa vida, porque encontramos pessoas, realidades, maneiras de viver a fé que, por serem desconhecidas, nos permitem aumentar nosso conhecimento.

Apontar trajetórias de crescimento

Francisco é alguém com uma grande capacidade de nos questionar, de nos colocar diante de nós mesmos e diante de Deus, uma atitude necessária para podermos crescer pessoalmente e como comunidade, para podermos caminhar juntos, para podermos tornar realidade uma Igreja sinodal. Daí a importância do tempo de retiro antes da Assembleia Sinodal, da necessidade de viver o Sínodo em um clima de oração para escutar a voz do Espírito, que pode ajudar os membros da Assembleia Sinodal a indicar “possíveis caminhos de crescimento pelos quais convidar as Igrejas a caminhar”, como disse o Cardeal Hollerich, relator geral do Sínodo, na primeira congregação geral, realizada na tarde de 2 de outubro.

Não queiramos monopolizar Deus, não pensemos que somos os únicos que o conhecem, não nos sintamos donos de Deus. Estejamos convencidos de que caminhar juntos nos enriquece, que compartilhar a água que vem de Deus não só enriquece os outros, mas também a nós mesmos. Vamos disfrutar do caminhar juntos, vamos sentir a alegria de viver nossa fé em comunhão com a humanidade e com todas as criaturas. É hora de assumir que a sinodalidade é compartilhar a água com todos, que puxá-la ao seu moinho só nos empobrece.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

A Igreja sinodal de Francisco, uma Igreja que escuta a todos, todos, todos

A Igreja sinodal de Francisco, que o próprio Papa definiu como o modo de ser Igreja no século XXI, é algo que vai muito além da Assembleia Sinodal. A sinodalidade é um processo que a Igreja leva adiante de várias maneiras.

Assumindo o estilo sinodal como Igreja

Nesse sentido, é importante a declaração feita pelo Secretário da Secretaria do Sínodo, que poderíamos dizer que é a sala de máquinas da sinodalidade e, portanto, um dos instrumentos decisivos da Igreja de Francisco. O Cardeal Mario Grech se referiu aos 10 Grupos de Estudo criados a pedido do Santo Padre para aprofundar as questões teológicas presentes no Relatório Síntese da Primeira Sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, algo que foi retomado por Giacomo Costa na Sala Stampa. O cardeal maltês disse que o trabalho desses grupos “não é estranho ao Caminho Sinodal e, especialmente, ao estilo sinodal que nós, como Igreja, estamos tentando assumir”.

Grech lembrou o que o Papa Francisco lhe disse em uma carta datada de 22 de fevereiro de 2024, na qual ele pediu a esses grupos que “trabalhassem de acordo com um método autenticamente sinodal”. Para o Secretário da Secretaria do Sínodo, “isso significa que, dentro do Sínodo, esses grupos são chamados a incentivar a participação efetiva de todos os membros, mas também são chamados a permanecer abertos a uma participação mais ampla, a de todo o Povo de Deus”.

Participação de todo o Povo de Deus, um ponto-chave

A participação de todo o povo de Deus é o ponto-chave dessa Igreja sinodal. Aqueles que participam desses grupos, incluindo os membros da Assembleia Sinodal, não podem se sentir como alguém que decide, mas como alguém que escuta a todos, escuta a voz do Espírito e, junto com outros, por meio da conversa no Espírito, discerne.

Na comunicação do Cardeal Grech, afirma-se claramente que “enquanto os 10 grupos – e com eles também a Comissão – continuarem funcionando, ou seja, até junho de 2025, será possível que todos enviem contribuições, comentários e propostas. Pastores e líderes da Igreja, mas também, e acima de tudo, cada crente, homem ou mulher, e cada grupo, associação, movimento ou comunidade poderá participar com sua própria contribuição”.

Uma Igreja que escuta

A importância dessa proposta é decisiva para entender o que significa uma Igreja que escuta. Penso, e me enche de alegria, na possibilidade de que um ministro da Palavra, uma catequista de uma das comunidades ribeirinhas que acompanho às margens do Rio Negro, na arquidiocese de Manaus, possa enviar à Secretaria do Sínodo o que é vivido, rezado, celebrado, testemunhado, nessas comunidades, por tantos homens e, principalmente, mulheres, que doam suas vidas gratuitamente para que o Evangelho continue presente na vida dessas pessoas. Quantas coisas interessantes poderiam vir dessas e de outras comunidades semelhantes!

Uma Igreja que tem medo de escutar a todos se torna autorreferencial, e Francisco nos adverte constantemente contra esse perigo. Portanto, só podemos dizer ao Secretariado do Sínodo: obrigado por garantir o método sinodal, por sua disposição em coletar o material que lhe será enviado e repassá-lo ao(s) grupo(s) relevante(s). A sinodalidade não é teoria, é prática, e isso, mesmo que deixe algumas pessoas nervosas, é sinodalidade, é Igreja real, porque a Igreja nunca foi um pequeno grupo de puros e escolhidos. Não nos esqueçamos que uma Igreja de puros e escolhidos, isso é heresia.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

S. Francisco de Assis, fundador da Ordem franciscana, Padroeiro da Itália

Um jovem com grandes aspirações

Pequeno de estatura, de caráter extrovertido, Francisco sempre nutriu no coração o desejo de realizar grandes empreendimentos; isto o induziu, com a idade de vinte anos, a partir, primeiro para a guerra entre Assis e Perugia e, depois, para a Cruzada. Filho de um rico mercante de tecidos, Pedro de Bernardone, e de uma mulher nobre provençal, Pica, nasceu em 1182 e cresceu entre a opulência da família e a vida mundana. Ao retorno da dura experiência bélica, doente e abalado, foi irreconhecível por todos. Alguma coisa, além da experiência no conflito, havia afetado profundamente a sua alma.

Um encontro perturbante e a pergunta: servir ao servo ou ao Senhor?

Ele jamais havia se esquecido das palavras recebidas em sonho, em Espoleto: “Por que te inquietas em buscar o servo em vez do Senhor?”. A sua existência tomou um novo rumo, guiado pelo constante desejo de saber para que Deus o chamasse. Oração e contemplação, no silêncio dos campos da Úmbria, levaram-no a abraçar como irmãos os leprosos e os desprezados, contra os quais sempre sentia sempre aversão e repugnância.

São Damião: “Francisco, vai e restaura a minha Igreja em ruína”.

A voz que ouviu em Espoleto voltou a ressoar no silêncio da oração diante de um crucifixo bizantino na igrejinha abandonada de São Damião: “Francisco, vai e restaura a minha Igreja, que como vês, está em ruína”. Aquela admoestação, antes entendida como convite a reconstruir pedra por pedra a ruína da capelinha, com os anos revelou ao jovem seu pleno significado. Ele era chamado a “coisas maiores”: “renovar”, em espírito de obediência, a Igreja que, na época, era investida por divisões e heresias.

Esposo da senhora Pobreza

A irreprimível alegria, brotada pelo sentir-se amado e chamado pelo Pai, aumentou no jovem o desejo de viver de Providência e, em prol do Evangelho, decidiu deixar seus bens aos pobres. Era irreparável a divergência criada com o pai, Pedro de Bernardone. Este o denunciou publicamente; então, o filho declarou seu íntimo desejo de casar com a senhora Pobreza, despojando-se das suas vestes diante do Bispo Guido.

A primeira comunidade de frades. O Papa aprova a Regra

Numerosos companheiros uniram-se a Francisco, que, como ele, queriam viver o Evangelho ao pé da letra, em pobreza, castidade e obediência. Em 1209, o primeiro núcleo de “frades” foi a Roma encontrar-se com o Papa Inocêncio III, que, impressionado por “aquele pequeno jovem de olhos ardentes”, aprovou a Regra, depois confirmada definitivamente, em 1223, por Honório III.

As Clarissas e a Ordem Terceira

Também Clara, uma nobre de Assis, foi atraída pelo carisma de Francisco. Ele a acolheu e deu início à segunda Ordem Franciscana “as pobres damas”, depois conhecidas como Clarissas. A seguir, fundou uma Terceira Ordem para os leigos.

Francisco, “Alter Christus”

O amor ardente por Cristo, expresso graciosamente com a representação do primeiro Presépio vivo, em Greccio, no Natal de 1223, levou o pobrezinho a conformar-se com Jesus e a receber, como primeiro santo da história, o sigilo dos estigmas. O “Jogral de Deus” foi testemunha da alegria da fé, aproximando do Evangelho também os não crentes e até capturando a atenção do Sultão, que o acolheu com honras na Terra Santa.

A vida de Francisco, Louvor ao Criador

A vida de Francisco foi um constante hino de louvor ao Criador. O “Cântico do Irmão Sol”, primeira obra-prima poética da literatura italiana, – escrita quando Francisco estava enfraquecido pela doença, – é expressão da liberdade de uma alma reconciliada com Deus, em Cristo. O Santo vai ao encontro de Jesus com alegria, quando a “irmã morte” o vem visitar: era a tarde de 3 de outubro de 1226.

O espírito de Assis, inspirador de fé e fraternidade

Francisco morreu, com 44 anos, no piso rude da Porciúncula, lugar onde recebeu o dom da “indulgência do Perdão”. Sua canonização ocorreu dois anos depois. O espírito de Francisco continua a inspirar muitos à obediência à Igreja, à promoção do diálogo entre todos, na verdade, na caridade e na tutela da Criação.

Dolores Palencia: “Nós, mulheres, também temos que aprender a nos libertar de um estilo de clericalismo que vivemos”.

Um dos elementos presentes no processo sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade é o lugar das mulheres na Igreja e sua participação nos processos de tomada de decisões, uma reflexão confiada a um dos dez grupos de trabalho criados pelo Papa Francisco em fevereiro de 2024, que continuará seu trabalho após o encerramento da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal.

O caminho está sendo percorrido

Estão sendo dados passos nessa direção, como Maria Dolores Palencia apontou na primeira coletiva de imprensa da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal. No seu caso, sua nomeação como Presidente Delegada da Assembleia Sinodal, junto com Momoko Nishimura do Japão, cargo que compartilha com outros sete homens, foi uma das surpresas da Primeira Sessão da Assembleia Sinodal.

O que se experimenta na Assembleia Sinodal e na vida cotidiana da Igreja nas dioceses, paróquias, comunidades e outras esferas eclesiais, leva a religiosa mexicana a dizer que “a experiência deste ano, entre uma sessão e outra, nos mostrou como uma experiência de aprendizagem, que um caminho está sendo feito, e que esse caminho está dando frutos”. Maria Dolores Palencia enfatizou que “depende muito dos contextos e das culturas, dos continentes”.

Abertura de novas experiências e propostas

A Delegada Presidente da Assembleia Sinodal faz eco ao que está sendo vivido no México, mas também na América Latina e no Caribe, algo que ela foi descobrindo nos diversos encontros para os quais, junto com os outros membros do Sínodo da região América-Caribe, foi convidada ao longo do processo sinodal, momentos em que compartilharam e dialogaram”. Nessa perspectiva, ela destaca que “está sendo trilhado um caminho em que o papel das mulheres, seus dons e suas contribuições em uma Igreja sinodal estão sendo cada vez mais reconhecidos”.

Ela também destacou que “estamos reconhecendo a possibilidade de abrir novas experiências e propostas para descobrir ainda mais esse papel, para podermos nos aprofundar”. Falando sobre o trabalho nos círculos menores, as mesas redondas nas quais a Assembleia Sinodal é organizada, ela contou o que ouviu na mesa da qual estava participando, onde foi dito que “há lugares onde os conselhos pastorais são cem por cento femininos, o padre e todos os membros do conselho pastoral são mulheres”.

Levando em conta os contextos

“Depende dos contextos, mas isso está sendo feito pouco a pouco”, disse. Nesse sentido, ela enfatizou que é um aprendizado, mesmo em alguns lugares, para mulheres leigas e consagradas, “porque também temos que aprender a nos libertar de um estilo de clericalismo que experimentamos, também de nossa parte”.

Por isso, a religiosa mexicana, acostumada a viver nas periferias, atualmente vivendo em um refúgio para migrantes no México, não hesita em dizer que “passos estão sendo dados, temos que dar passos ainda mais amplos, mais rápidos, mais intensos”, mas ao mesmo tempo ressalta que “temos que levar em conta os contextos, respeitar as culturas, dialogar com essas culturas e ouvir as próprias mulheres, nesses lugares e nessas culturas, mas há de fato um caminho a seguir”.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB No

O Sínodo “não pode ser um espaço para negociar mudanças estruturais”

No dia em que a Sala Stampa da Santa Sé retornou ao seu local habitual, depois de um longo período de reformas, foi realizada a primeira coletiva de imprensa da Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que acontece em Roma de 2 a 27 de outubro, com 365 membros. Além de Paolo Ruffini, prefeito do dicastério para a comunicação, e Cristiane Murray, vice-diretora da Sala Stampa, participaram da coletiva Giacomo Costa, secretário especial da Assembleia Sinodal, Ricardo Battochio, presidente da Associação Teológica Italiana, Maria Dolores Palencia, uma das presidentes delegadas da assembleia, e o bispo Daniel Ernesto Flores, de Brownsville (EUA).

Importância da espiritualidade e da oração

Na Assembleia Sinodal, “a espiritualidade e a oração ocupam um lugar muito importante”, segundo Ruffini, assim como a situação mundial, marcada pela guerra, algo presente na intervenção do Cardeal Grech em sua intervenção na primeira congregação e que levou a assembleia a rezar pela paz. Ele também se referiu aos dez grupos de trabalho criados pelo Papa, cujo trabalho está entrelaçado com o da Assembleia Sinodal. Na quinta-feira de manhã, começaram os trabalhos sobre os fundamentos do Instrumentum laboris.

Chamados a dar um passo adiante

Uma segunda sessão na qual “somos chamados a dar um passo adiante”, enfatizou Giacomo Costa, que insistiu que “não é uma repetição, nem uma continuação cronológica do que foi vivido no ano passado”, destacando o que foi aprendido ao longo do caminho. Ele também destacou as palavras do Papa de que “não é uma assembleia parlamentar, mas um lugar de escuta e comunhão”, algo que deve ser compreendido cada vez mais. Da mesma forma, lembrou que o Sínodo “não pode ser um lugar para negociar mudanças estruturais, mas um lugar para escolher a vida com vistas à conversão e ao perdão”, algo que a vigília penitencial ajudou a alcançar.

No primeiro dia, foi mostrado o trabalho realizado, com uma apresentação do Cardeal Grech que ajudou a entender a necessidade de que os dez grupos de reflexão sejam oficinas da vida sinodal, nas quais se possa continuar aprendendo, convidando todos a apoiar esses grupos, aos quais todos podem enviar contribuições até julho de 2025, que serão compiladas e enviadas aos grupos pela Secretaria do Sínodo, sendo assim uma forma de trabalhar juntos como Igreja de uma maneira diferente, algo em que o Papa tem insistido desde o início, tudo no caminho para que a Igreja continue a proclamar o Evangelho, a escutar e a ser um sinal de esperança em um mundo dividido e fragmentado.

No trabalho dos grupos, a novidade é a reflexão baseada no Instrumentum laboris, de modo que os melhores elementos possam emergir, em busca dos temas a serem votados pela Assembleia, e assim se tornar uma Igreja sinodal misericordiosa, na qual o Papa Francisco insiste, como Giacomo Costa destacou.

Uma Igreja sinodal misericordiosa

A celebração penitencial criou a atmosfera da Assembleia, afirmou Battochio, gerando uma consciência do que significa ser Igreja, consciente do pecado individual e do pecado de toda a Igreja, um pecado que é uma ferida nos relacionamentos e que leva a pensar na necessidade de misericórdia, porque o amor de Deus não se cansa e torna possível viver novos relacionamentos, em uma Igreja sinodal misericordiosa, que é assim porque é alcançada pela misericórdia de Deus. Ele também destacou o importante trabalho dos teólogos e sua ajuda na reflexão e elaboração do Instrumentum laboris, que agora facilita a compreensão teológica das contribuições individuais e dos círculos menores.

Um caminho feito pouco a pouco

Como uma das presidentes delegadas, Maria Dolores Palencia enfatizou a importância de os presidentes delegados terem se reunido dias antes do início da Segunda Sessão, juntamente com os facilitadores, “podendo expressar dúvidas e pequenos medos, e criar a comunidade de amizade e fraternidade, poder começar a assembleia com muita coragem e muita liberdade, sentindo que estamos fazendo esse caminho pouco a pouco, juntos, juntos”, enfatizando que não há um Documento Final pronto, mas um documento para trabalhar, aprofundar, discernir, avançar nele, levando em conta a realidade do nosso mundo, que está se tornando cada vez mais extrema.

Um mundo que “é olhado com o amor de Deus, com o amor do Pai e com o nosso próprio amor”, afirmou a religiosa. Ela insistiu que “a partir desse olhar amoroso e misericordioso, devemos colocar o melhor de nós mesmos para fazer um caminho de reflexão e aprofundamento, para que possamos encontrar orientações, caminhos, formas de avançar em direção a uma experiência concreta desse modo de ser Igreja, que é a sinodalidade para a missão”. Maria Dolores Palencia insistiu que “o foco é a missão, o objetivo é a missão”, afirmando que estar na Assembleia é um presente recebido para um serviço de Igreja ao mundo.

A perspectiva não é inimiga da verdade

O bispo estadunidense enfatizou o fato de nos reunirmos novamente e, assim, relembrarmos as experiências do último ano, destacando o crescimento que ocorreu. O bispo Flores destacou a importância do silêncio no retiro, como um momento do qual surge a palavra, algo importante em uma Segunda Sessão que será um momento para aprofundar o silêncio como parte fundamental de tudo o que tem um estilo sinodal, que emerge da compreensão espiritual de como o mundo se manifesta. Junto com isso, ele destacou as diferentes perspectivas de apresentação da Ressurreição no Evangelho de João, realizadas pelo Padre Radcliffe no retiro.

Para Dom Daniel Flores, “a perspectiva não é inimiga da verdade, é a maneira normal de agir na Igreja”. Nesse sentido, “a realidade sinodal consiste em ser consciente de que a perspectiva se aproxima do Mistério, mas a partir de contextos diferentes”, destacando a importância da escuta como forma de entender as perspectivas locais, insistindo em ouvir as vozes das pessoas, que querem se expressar a partir de sua perspectiva. Nesse sentido, afirmou que, se fosse fácil escutar, todos o faríamos, mas não é o caso, de modo que a realidade sinodal é uma escuta consciente das diferentes perspectivas, que devem ser conhecidas para se ter um quadro amplo, que é o rosto de Cristo no mundo em que vivemos.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

O Papa: rezar é deixar que o Espírito mude nosso coração

Publicamos o prefácio do Papa Francisco, antecipado pelo diário italiano “Avvenire”, para o livro intitulado “Como Jesus nos ensinou. A oração dos peregrinos da esperança” (Edizioni San Paolo), que será publicado na quarta-feira, 9 de outubro. O texto reúne as reflexões, algumas inéditas, do Papa Francisco sobre a oração

Papa Francisco

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Aprendi a rezar com minha avó. Foi minha avó quem me ensinou a rezar e também dela adquiri a devoção a São José. Depois, os padres espirituais que tive, tanto no seminário quanto na Companhia, me ajudaram a avançar na experiência da oração.

Entre eles, gostaria de mencionar o padre Miguel Angel Fiorito, um jesuíta argentino, professor de filosofia, mas também um entusiasta da espiritualidade. Suas obras agora também foram publicadas na Itália: um grande mestre espiritual que me ensinou a crescer em minha maneira de orar. Ele deu muitos cursos sobre espiritualidade. Ensinou-me a orar como um filho e não buscando os caramelos da consolação: como se dá a oração? Como habituar-se com a oração? O que fazer quando há consolo ou mesmo desolação, quando não há desejo de orar? Ele foi um mestre de vida espiritual para mim. Com o passar do tempo, minha formação para a oração permaneceu o mesma.

Mesmo como Papa, nada mudou: rezo como sempre, com os ritmos habituais. Às vezes, algumas orações vocais, às vezes, diante do Santíssimo Sacramento, passo por alguns momentos de aridez. Minha oração seguiu adiante com as coisas bonitas e com as coisas não tão bonitas. Às vezes penso que preciso rezar mais, isso sim. Não há tempo, mas preciso rezar mais. Sempre, então, tenho apego à Liturgia das Horas, nunca a deixo: à tarde, as Vésperas, depois o Ofício de Leituras, de manhã, as Laudes e depois a Missa. E depois a oração mental, a oração de meditação, quando tenho um pouco de tempo, tento conversar um pouco e perguntar algo ao Senhor, mas tenho medo de que Ele responda…

Capa do livro

Capa do livro

E depois há o Pai-Nosso, a oração de Jesus. Tudo está lá! Quando os discípulos pediram a Jesus que os ensinasse a orar, Ele não chamou um catequista para instruí-los em alguma metodologia de oração, ou algum especialista na arte da oração. Ele disse: “Dizei assim: Pai-Nosso” (cf. Lc 11,2). O Pai-Nosso é a oração universal, a oração dos filhos, a oração da confiança, a oração da coragem e a oração também da resignação. É a grande oração.

E há as orações a Maria: eu também tenho muita fé em Nossa Senhora, sempre rezo o Terço. Gosto de senti-la perto, porque ela é Mãe e nos guia. Há uma história muito bonita, é claro que é uma lenda, que nos conta como Nossa Senhora salva todo mundo! É a história de Nossa Senhora dos errantes, protetora dos ladrões. Eles roubam, mas como rezam para ela, quando um deles morre, Nossa Senhora, que está na janela do céu, diz para ele se esconder. E ela lhe diz para não ir até Pedro, que não o deixará entrar. Mas, à noite, ela abre a janela do Paraíso e o deixa entrar por lá. Gosto disso: Nossa Senhora é aquela que deixa você entrar pela janela. É quase um contrabando. Como em Caná. O Senhor não teve a liberdade de dizer não. Ela faz assim com seu Filho. Ela é assim: onipotência suplicante.

É também por causa dessa confiança que, ao final de meus discursos públicos, sempre peço que orem por mim. Preciso, nesse serviço à Igreja, do apoio da comunidade. Se a Igreja não o apoiar com orações, você está acabado. A comunidade deve apoiar seu bispo e o bispo deve orar pela comunidade.

A oração abre o coração para o Senhor e, quando o Espírito entra, muda sua vida por dentro. É por isso que é preciso orar, para abrir o coração e deixar espaço para o Espírito. Oramos para Jesus, para o Pai, para Nossa Senhora, mas não costumamos falar com o Espírito Santo em oração. Ao invés, é o Espírito Santo que muda nosso coração, entra em nosso coração e o muda. O Pai não nos unge, o Filho não nos unge. É o Espírito que nos unge com sua presença e é a unção do Espírito Santo que me faz entender bem a realidade da Igreja e o mistério de Deus.

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