A Praça de San Pedro acolheu no dia 20 de outubro de 2024, Domingo Mundial das Missões, a canonização de 14 novos santos, dentre eles São José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata. O milagre para a canonização aconteceu com o indígena Sorino Yanomami, da missão Catrimani, na diocese de Roraima.
Opção pelos povos indígenas
Segundo o bispo de Roraima, dom Evaristo Spengler, presente na celebração, a diocese de Roraima, desde sua criação como prelazia, “fez uma clara opção pelos povos indígenas, isso com muita perseguição, com muito sacrifício”, sendo perseguidos e ameaçados de morte, inclusive alguns bispos. “Significa que a opção teve um custo muito grande e tem um custo até hoje”, enfatizou o bispo.
“Acontecer o milagre com um indígena yanomami, e operado pelo fundador dos Missionários da Consolata, José Allamano, agora santo, para nós é simbólico. Significa que Deus está nos dando um sinal de que esse é o caminho, a aliança com os povos indígenas, com os mais fragilizados da sociedade, esse é o caminho onde acontece o Reino de Deus neste momento, onde Deus quer a sua Igreja”, salientou dom Evaristo Spengler.
Valorizar o povo yanomami
O milagre aconteceu em uma missão onde os Missionários e Missionárias da Consolata chegaram em 1965. Lá eles fazem uma missão de presença, sem celebrar sacramentos junto aos indígenas, uma atitude que “quer nos dizer que Deus quer o diálogo e o respeito ao diferente”, segundo o bispo de Roraima. Ele disse que “ser um missionário da Consolata em Catrimani significa valorizar aquele povo, com a sua crença, a sua cultura”. Dom Evaristo Spengler enfatizou que “eles creem em Deus, um Deus que se revela de uma maneira diferente, mas começam a dialogar conosco”, reconhecendo a grandeza de um Deus que conseguiu curar o indígena Sorino.
Um diálogo que, segundo o bispo de Roraima, “é muito importante para nós também conhecermos como é que Deus vai se revelando de tantas formas. Deus vai se revelando no passado, Deus se revela no presente”, enfatizando que “a revelação plena é com Jesus Cristo, mas nós conseguimos dialogar com aqueles que têm uma outra forma de presença divina em suas vidas”.
Roraima, uma Igreja com uma história sinodal
O bispo Salientou que “a Igreja de Roraima tem uma história que é muito sinodal, é um caminhar junto do bispo, com os padres, missionários e missionárias e o Povo de Deus, todos os leigos”. Segundo dom Evaristo Spengler, “essa abertura para o caminhar juntos, também dá uma abertura para as culturas diferentes”, relatando a existência de 12 povos indígenas em Roraima, sendo os mais numerosos os Yanomami, Macuxi e Wapichana, muitos deles batizados, com catequistas e ministros da Palavra.
Dom Evaristo Spengler disse que “entre os Yanomami foi diferente, é um diálogo intercultural, interreligioso, porque a presença de Deus está forte na vida deles, e nós temos que fazer essa escuta, é Deus que se revelou no passado, viu o sofrimento do seu povo, desceu para libertá-lo, e está escutando esse povo hoje de formas diferentes. Se revela também com sinais diferentes, mas o sinal de agregação, de unidade, para nós nesse momento, é o sinal desse milagre que acontece com o indígena Sorino, operado por Deus através de São José Allamano”.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
No Domingo Mundial das Missões, a uma semana da clausura da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade, que realiza em Roma sua Segunda Sessão de 2 a 27 de outubro, Papa Francisco presidiu a Eucaristia em que foram canonizados 14 novos santos: o Irmão Manuel Ruiz Lopez e sete companheiros, Francisco, Mooti y Rafael Massabki, José Allamano, Irmã Paradis Marie Leonie e a Irmã Elena Guerra, que, segundo o Santo Padre, “viveram o estilo de Jesus: o serviço”.
Discípulos do Evangelho
A eles se referiu Francisco em sua homilia como “discípulos do Evangelho”, destacando que “ao longo da história conturbada da humanidade, foram servos fiéis, homens e mulheres que serviram no martírio e na alegria, como o Irmão Manuel Ruiz Lopez e seus companheiros. Trata-se de sacerdotes e consagradas com o fervor da paixão missionária, como o Padre Giuseppe Allamano, a Irmã Paradis Marie Leonie e a Irmã Elena Guerra”. Em palavras do Papa, “a fé e o apostolado que realizaram não alimentaram neles desejos mundanos e avidez de poder; pelo contrário, eles fizeram-se servidores dos seus irmãos, criativos em fazer o bem, firmes nas dificuldades, generosos até ao fim”.
Comentando o Evangelho do XXIX Domingo do Tempo Comum, lembrando a conversa de Jesus com Tiago e João, Francisco disse que “Jesus faz perguntas e, deste modo, ajuda-nos a discernir, porque as perguntas fazem-nos descobrir o que há dentro de nós, iluminam o que trazemos no coração. Dai o convite que ele fez a nos deixarmos interpelar pela Palavra do Senhor, tendo como ponto de partida as perguntas de Jesus: “O que queres que faça por ti?”; “podes beber o meu cálice?”
São perguntas que mostram “o vínculo e as expectativas que os discípulos nutrem para com ele, com as luzes e sombras próprias de qualquer relação”, lembrou o Papa. Reconhecendo a ligação de Jesus com Tiago e João, ele disse que “têm pretensões. Manifestam o desejo de estar perto dele, mas apenas para ocupar um lugar de honra, para desempenhar um papel importante”, segundo relata o texto evangélico: “na sua glória, se sentarem um à sua direita e outro à sua esquerda”. É por isso que “torna-se evidente que pensam em Jesus como um Messias vitorioso e glorioso e esperam que Ele partilhe a sua glória com eles. Veem em Jesus o Messias, mas pensam nele segundo a lógica do poder”, sublinhou Francisco.
Com a segunda pergunta: “Podeis beber o cálice que Eu bebo e receber o batismo com que Eu sou batizado?”, o Papa disse que “Jesus desmente esta imagem de Messias e ajuda-os, deste modo, a mudar de olhar, isto é, a converterem-se”. Segundo ele, “Revela-lhes, desta maneira, que não é o Messias que eles pensam que é; é o Deus de amor, que se abaixa para chegar aos que estão em baixo; que se faz fraco para levantar os fracos; que trabalha pela paz e não pela guerra; que veio para servir e não para ser servido. O cálice que o Senhor vai beber é a oferta da sua vida, que nos foi dada por amor, até à morte e morte de cruz”.
O escravo de todos
Nesse momento, o Santo Padre lembrou que “à sua direita e à sua esquerda estarão dois ladrões, suspensos na cruz como Ele e não instalados confortavelmente em lugares de poder; dois ladrões pregados com Cristo na dor e não sentados na glória. O rei crucificado, o justo condenado torna-se escravo de todos: este é verdadeiramente o Filho de Deus!”. Prosseguindo com o comentario, ele destacou que “vence não quem domina, mas quem serve por amor”, lembrando que “é o que nos recorda também a Carta aos Hebreus.
No texto aparece que “neste momento, Jesus pode ajudar os discípulos a converterem-se, a mudarem de mentalidade”, mostrando que frente ao poder dos grandes, “não deve ser assim para aqueles que seguem um Deus que se fez servo a fim de chegar a todos com o seu amor. Quem segue Cristo, se quiser ser grande deve servir, aprendendo d’Ele”. No Evangelho do dia, Francisco ve que “Jesus revela os pensamentos, os desejos e as previsões do nosso coração, desmascarando por vezes as nossas expectativas de glória, domínio e poder. Ele ajuda-nos a pensar já não segundo os critérios do mundo, mas segundo o estilo de Deus, que se faz último para que os últimos sejam erguidos e se tornem os primeiros”.
O serviço é o estilo de vida cristão
Para o Papa Francisco, “muitas vezes, estas perguntas de Jesus, com o seu ensinamento sobre o serviço, são tão incompreensíveis para nós como o eram para os discípulos. Porém, seguindo-O, percorrendo os Seus passos e acolhendo o dom do Seu amor que transforma a nossa maneira de pensar, também nós podemos aprender o estilo de Deus: o serviço”. Uma dinâmica que ele convidou a aspirar: “não ao poder, mas ao serviço. O serviço é o estilo de vidacristão. Não se trata de uma lista de coisas a fazer, como se, uma vez realizadas, pudéssemos considerar terminado o nosso turno. Quem serve com amor não diz: ‘agora toca a outro’. Este é um pensamento de empregados, não de testemunhas”.
Segundo o Santo Padre, “o serviço nasce do amor e o amor não conhece fronteiras, não faz cálculos, mas gasta-se e dá-se. Não se limita a produzir para ter resultados, nem é uma prestação ocasional; é sim algo que nasce do coração, um coração renovado pelo amor e no amor”. É por isso que “quando aprendemos a servir, cada gesto de atenção e cuidado, cada expressão de ternura, cada obra de misericórdia torna-se um reflexo do amor de Deus. E assim continuamos a obra de Jesus no mundo”. Finalmente, o Papa chamou a suplicar com confiança a intercessão dos novos santos, “para que também nós possamos seguir Cristo, segui-lo no serviço, e tornarmo-nos testemunhas de esperança para o mundo”.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
Padre Bob mulega e a professora de Alfabetização, Maria Edna, falam com detalhes sobre o episódio com o indígena Sorino Yanomami, atacado por uma onça
Arte Yanomami 2017 / Fotos do padre Bob e Maria Edna/ entrevista exclusiva – Dennefer Costa
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A presença das missões da Consolata na Amazônia começou em 1948, com foco especial em Roraima, onde atuaram junto aos povos originários das Terras Indígenas Raposa-Serra do Sol e Yanomami. Foi na missão do Catrimani, dentro da Terra Indígena Yanomami, que ocorreu o milagre atribuído ao Beato José Allamano, em fevereiro de 1996.
Naquele tempo, Sorino Yanomami, conhecido por sua presença nas comunidades, foi brutalmente atacado por uma onça. A professora de alfabetização Maria Edna de Brito, que trabalhou na missão, se lembra com detalhes o impacto desse acontecimento na comunidade e entre os missionários.
“Sorino era um dos indígenas que participava das trocas de conhecimento nas aulas, e ele se envolvia espontaneamente em nossos encontros. Ele aprendeu e transmitiu isso para os outros. Quando soubemos do ataque, ficamos todos abalados. Foi um choque para as comunidades e para nós, missionários, porque a gravidade do ferimento era extrema. Todos nós, irmãos, padres e missionários leigos, estávamos profundamente preocupados.” Disse Maria Edna Brito.
Na missão do Catrimani, além da alfabetização, as missões sempre valorizavam a troca de saberes entre indígenas e não indígenas, e Sorino era uma figura central nessas interações.
A difícil missão de salvar Sorino
O padre Bob Mulega, missão da Consolata que ainda atua na Terra indígena Yanomami, no Catrimani, registra o desespero das irmãs missionárias que socorreram Sorino. Ele narra um momento tenso quando os indígenas da comunidade, temendo que o pior acontecesse, procurou impedir que Sorino fosse levado para Boa Vista, onde poderia receber tratamento médico.
Padre Bob conta: “Chegando ao posto, as irmãs estavam desesperadas. Elas foram chamadas pela radiofonia indo de um avião para remover Sorino. A situação era tão crítica que os homens da comunidade estavam prontos para impedi-las com flechas. Foi então que Sorino, mesmo em seu estado crítico, segurou a mão da Irmã Felicita e disse: ‘Não me deixe morrer.’ Esse foi um momento decisivo. As mulheres, que normalmente não intervêm nessas decisões, cercaram a irmã e, com coragem, disseram aos homens que ela tinha que levar Sorino para Boa Vista.”
O ataque a Sorino coincidiu com o início da novena em honra do Beato José Allamano. Os missionários e indígenas começaram a orar fervorosamente pela intercessão de Allamano, exigindo que a vida de Sorino fosse poupada.
Um milagre que mudou a história
Contra todas as expectativas, Sorino sobreviveu e se recuperou completamente. O caso foi investigado pela Igreja e atribuído à intercessão de José Allamano, cujas ações milagrosas foram reconhecidas.
Em 2020, na época, o Bispo de Roraima, Dom Mário Antônio da Silva, abriu oficialmente o processo de investigação diocesana sobre a cura de Sorino. Com o reconhecimento do milagre pelo Vaticano, José Allamano será canonizado no próximo dia 20 de outubro de 2024, Dia Mundial das Missões, marcando um momento histórico para a Igreja Católica e para a missão da Consolata na Amazônia.
A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade encerrou nesta sexta-feira o último módulo, o de Lugares. A partir de segunda-feira, quando os trabalhos forem retomados na Sala Sinodal, será a vez de abordar as conclusões.
Descentralização e o papel das Igrejas Particulares
De acordo com o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, a Assembleia Sinodal nas últimas horas tratou de dois tópicos: os critérios para definir uma descentralização saudável e o papel das igrejas particulares no contexto mais amplo da Igreja Católica e das Igrejas sub iudice. Nesse sentido, foi dito que a singularidade de cada igreja não deve ser vista como um desafio, mas como um dom especial. Ele se referiu à necessidade de garantir a revitalização das Igrejas Católicas Orientais e a possibilidade de celebração comum da Páscoa.
Uma reunião dos 10 grupos de estudo criados pelo Papa em torno do Sínodo, uma reunião com os canonistas e outra com os jovens estão programadas para sexta-feira. Para a próxima semana, período de conclusões e redação do Documento Final, foi solicitado um clima de oração e retiro, e na segunda-feira, antes de retomar os trabalhos, será celebrada uma missa presidida pelo Cardeal Grech, secretário do Sínodo.
Comunidades de base como um lugar privilegiado para a Igreja
Com relação aos critérios para definir uma descentralização saudável, Sheila Pires citou a proximidade e a sacramentalidade, com o papel das comunidades de base como o lugar privilegiado da Igreja sendo enfatizado mais uma vez. Ela falou sobre o mundo digital e a necessidade de discernimento no mundo digital, de ser discípulos digitais. Houve um chamado para sermos resilientes, para não termos medo da pluralidade, o que não desvaloriza os ministérios e os lugares. Em relação às paróquias dentro da assembleia, ficou claro que a administração devora a dimensão missionária na paróquia, o que exige novas formas de ser paróquia. Levando em conta que a sinodalidade acontece nas realidades, há um apelo à escuta das pessoas que sofrem, à descentralização em vista da corresponsabilidade do Povo de Deus, à promoção dos leigos, à clareza das competências.
Na Igreja, a Palavra de Deus está inserida em conceitos culturais específicos, o que exige inculturar o Evangelho, buscando a unidade na diversidade, em uma tensão que não é estática, mas dinâmica. Não se pode esquecer que o desafio sinodal está em acolher o que é diferente, mas a unidade não é um quebra-cabeça. Ela está em uma igreja que vive e cresce como qualquer outro organismo vivo. É por isso que a unidade no essencial e a diversidade no secundário são necessárias. Mais uma vez, o diaconato feminino foi discutido e o fato de as mulheres estarem presentes nos processos de tomada de decisão é importante, mas não suficiente. Sheila Pires relatou que a violência contra a mulher, a capacidade de inclusão e o cuidado com o meio ambiente foram mencionados.
Caminho comum das Igrejas do Mediterrâneo
O Papa Francisco confiou ao arcebispo de Marselha (França), Cardeal Jean-Marc Aveline, a tarefa de preparar o trabalho comum no Mediterrâneo. Uma iniciativa que começou em 2020 em Bari, na reunião de todos os bispos da bacia do Mediterrâneo, onde houve uma troca de situações em torno desse mar, que são muito diferentes. Um caminho que continuou com novas reuniões em Florença em 2022 e Marselha em 2023. O desejo do Papa de criar redes, de ouvir as igrejas em dificuldade, está sendo colocado em prática. Não se deve esquecer que o Mediterrâneo é uma região onde coisas dramáticas estão acontecendo, guerras, falta de liberdade, corrupção, migrantes tentando atravessar o mar, o que exige que trabalhemos juntos nesse contexto.
Nesse sentido, o cardeal francês falou da existência de redes para ajudar os migrantes quando eles chegam, redes de faculdades de teologia, o trabalho comum dos santuários, redes de educação, espaços de diálogo entre jovens e bispos, com prefeitos, com pessoas de diferentes religiões. Essas são realidades que têm uma conexão com o processo sinodal. Trata-se de ver como a Igreja pode contribuir para a justiça e a paz nessa região, como ela pode fazer a sua parte, em uma região com três continentes e cinco margens. Uma realidade que exige diálogo ecumênico e inter-religioso, sobre rotas de migração, clima, tensões geopolíticas. Diante de tantos desafios, Avelline disse abertamente que, assim como foi realizado um Sínodo para a Amazônia, o Mediterrâneo também merece um Sínodo.
O Sínodo como um caminho para a paz
O caminho sinodal ajuda a resolver muitos problemas humanos em conjunto, disse o Cardeal Stephen Ameyu Martin Mulla, arcebispo de Juba (Sudão do Sul), um país nascido em 2011, onde a conferência episcopal é formada juntamente com os bispos do Sudão. O cardeal lembrou a necessidade de as pessoas entenderem que as guerras que ocorreram foram travadas por pessoas que queriam ser livres. Nesse sentido, ele disse que ainda existem “situações pendentes que temos que enfrentar e resolver juntos, problemas humanitários muito sérios, criados por seres humanos”. A divisão do Sudão aumentou, os problemas aumentaram, os acordos de paz não estão sendo cumpridos e precisam ser atualizados.
O Arcebispo de Juba lembrou a preocupação do Santo Padre, mas isso não impediu a continuidade de uma situação de instabilidade, que está aumentando como resultado da corrupção e da má administração dos recursos, em um país com enorme potencial. Ele vê o Sínodo como uma ajuda para o diálogo dos bispos com os políticos. Ele também relatou os problemas relacionados à mudança climática, que causa secas e inundações, referindo-se à recente visita do Cardeal Czerny. O Sudão do Sul está crescendo como Igreja e regredindo no campo social e político, o que exige mais diálogo. A situação é agravada pela falta de empregos e de lugares para morar. É necessário, a partir do Sínodo, “nos colocarmos a serviço do povo, diante de uma guerra que destrói tudo”. É por isso que, diante dos problemas, que são de todos, o diálogo é necessário.
Um continente unido eclesialmente para servir melhor
O Arcebispo de Bogotá (Colômbia), Cardeal Luis José Rueda, contou a experiência de fé vivida nos contextos das comunidades em um continente jovem que se uniu eclesialmente para servir melhor, como é o caso da América Latina. Nesse sentido, o CELAM, a CLAR e a CAL deram um rumo unificado à Igreja latino-americana, na qual sempre se destaca a busca de uma espiritualidade muito próxima aos pobres, recordando a opção preferencial pelos pobres assumida na Conferência Geral do CELAM realizada em 1968 em Medellín.
Entre os desafios presentes no continente, ele falou sobre a violência, o tráfico de drogas, a injustiça, a migração, com multidões a caminho dos Estados Unidos, em busca de vida, mas às vezes encontrando a morte, citando o que está acontecendo no passo do Darien. Diante dessa realidade, a Igreja latino-americana decidiu se unir e ter um método para abordar a realidade e, a partir de um olhar de esperança e fé, ver a presença do Verbo Encarnado. Uma Igreja que opta pelo diálogo com todos, em uma realidade onde tudo está interconectado, “tudo nos desafia, mas tudo nos enche de esperança”, citando como exemplo o diálogo pela paz na Colômbia. Com relação ao ambiente sinodal, destacou que “ele nos dá a capacidade de dialogar, de escutar, de caminhar juntos, de buscar objetivos comuns”.
Uma resposta da Igreja de Cristo em situações dramáticas
“O Sínodo é uma resposta a esses desafios do mundo, o Sínodo não se refere a, nem alimenta, nem incentiva uma Igreja egocêntrica, uma Igreja que usa uma linguagem que ninguém entende e lida com questões com as quais ninguém se importa, mas uma Igreja no mundo, uma Igreja que traz a resposta de Cristo a todas as situações dramáticas do mundo de hoje. Uma Igreja servidora, aberta, uma Igreja missionária”, disse o subsecretário do Sínodo, Mons. Luis Marín.
O bispo agostiniano definiu a experiência vivida na Assembleia como muito rica, destacando que o que está emergindo do diálogo e da experiência sinodal é uma Igreja que se apoia em quatro pilares: uma Igreja Cristo cêntrica, Cristo é uma pessoa viva que responde e entusiasma; uma Igreja fraterna, a partir da diversidade de culturas; uma Igreja inclusiva, corresponsável; uma Igreja servidora, longe das lutas pelo poder, insistindo que “viemos à Igreja para servir”. Uma Igreja dinâmica, “que possamos comunicar entusiasmo no mundo de hoje”, diante de tanto drama e dor, a Igreja deve trazer a alegria de Cristo e ser uma fonte de verdadeiro entusiasmo.
Luis Marín falou de dois critérios para os diálogos no Sínodo: conexão e inter-relação, a partir das paróquias, e, por outro lado, concretude, indo até a vida cotidiana. Ele também falou sobre os quatro binômios que foram explorados em profundidade: espiritualidade – sinais dos tempos, verdadeira escuta do Espírito Santo que fala no Povo de Deus, o Evangelho se encarna, não é uma escuta etérea e piedosa; unidade e variedade, uma só fé, um só Senhor, um só batismo, em uma variedade de situações, culturas e circunstâncias, que exigem diferentes reações; o centro e as periferias, desenvolvimento do princípio da subsidiariedade; um processo de renovação que não termina e, ao mesmo tempo, está se concretizando em estruturas, que são instrumentos para viver a realidade da Igreja. A partir daí, procuramos ser mais coerentes, deixar de lado o pessimismo, porque o Sínodo abre uma enorme esperança, que leva cada um a se envolver e contribuir com o processo.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
“O Sínodo, como a fé cristã, é fundamentalmente uma experiência de Cristo, e se não formos a essa experiência não vivemos a fé cristã em toda a sua profundidade”, disse o subsecretário do Sínodo, Dom Luis Marín de San Martín, na Sala Stampa do Vaticano, analisando o processo sinodal pelo qual a Igreja está passando, algo que ele conhece de seu serviço na Secretaria do Sínodo.
Processo sinodal, um filho do Vaticano II
Em suas palavras, ele lembrou que “o processo sinodal é filho da eclesiologia do Vaticano II, sobretudo da Lumen Gentium”, insistindo que vale a pena reler e aprofundar esses documentos, e lembrando que é algo que “vem de mais longe, não é uma invenção, não é algo que o Concílio descobriu”.
Diante dessa situação, Marín de San Martín assinalou que “a mudança que temos que fazer é que a Igreja é sinodal em sua essência, assim como a Igreja é missionária, assim como a Igreja é comunhão em si mesma”. Nesse sentido, ele disse que “isso vem da Igreja primitiva. É por isso que as fontes são a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja, o Magistério, a história, o desenvolvimento canônico”, algo que ‘nos faz ver que a Igreja é essencialmente sinodal’.
Um processo que depende de todos e de cada um
Lembrando que “tudo isso é um processo”, o subsecretário do Sínodo exclamou: “como eu gostaria do que que tudo mudasse de um dia para o outro”. No entanto, “não há varinhas mágicas, as coisas não mudam de um dia para o outro, são processos de renovação, e dependerá de cada um de nós, de nossas paróquias, de nossas dioceses, de nossos grupos, tornar tudo isso concreto”.
Diante desta dinâmica, o bispo agostiniano insistiu em que “todo este processo sinodal não pode ficar nos princípios, nas ideias, deve descer à prática, deve descer ao nosso mundo, deve descer à nossa realidade concreta”, destacando a importância das paróquias, das pequenas comunidades. Nesse sentido, ele lembrou a reunião de párocos, realizada em abril e maio, onde surgiu o tema. “Todo processo de renovação deve ser de baixo para cima, não de cima para baixo, deve vir de baixo para cima, da realidade, da vida cotidiana”, algo que ele disse acreditar estar sendo vivenciado no Sínodo.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
Há mais de 20 anos, durante um retiro, Adolfo Chércoles, falando sobre o imediatismo da cultura atual, disse que hoje ninguém construiria uma catedral gótica, cuja construção levava décadas, até mesmo séculos, para ser concluída. O jesuíta estava se referindo à dificuldade que temos em plantar sabendo que não colheremos os frutos, uma atitude que tem aumentado ainda mais com o passar dos anos.
O caminho e o tempo de Deus
Na Amazônia, aprendi a entender que o espaço e o tempo podem ser compreendidos de forma diferente. Naquela imensidão de terra, de águas, onde em algumas regiões é possível navegar por seus rios sem encontrar ninguém além do Criador, sempre presente em tudo o que nos cerca, descobrimos que perto e longe, cedo e tarde são conceitos cuja percepção varia.
O caminho e o tempo de Deus não são conceitos facilmente compreendidos e assumidos no momento histórico atual. O caminho de Deus é uma longa estrada, que deve ser percorrida lentamente, para ser desfrutada, ainda mais quando, em nossos passos, desfrutamos da companhia de outras pessoas, quando somos capazes de avançar juntos, encontrando um ritmo no qual todos nos sentimos à vontade.
Os processos do Francisco
Quando assumirmos que vale a pena percorrer o caminho mais longo, entenderemos a Igreja dos processos que Francisco propõe. Em certa ocasião, em um encontro com jesuítas chilenos, o Papa lhes disse que as propostas do Concílio Vaticano II só seriam assumidas 100 anos depois, algo que não é exagerado, pois, passados 60 anos, percebe-se que muitos dos elementos e dinâmicas fundamentais propostos nos documentos conciliares ainda estão um tanto distantes.
A sinodalidade é uma dinâmica que favorece a missão, ajuda a compreender o sentido fundamental de ser Igreja, que é ser comunidade, caminhar juntos, viver a comunhão. Uma Igreja que restringe a participação se enfraquece, porque o envolvimento decisivo de todos os batizados e batizadas na missão é um caminho necessário para realizar o que pedimos todos os dias: “Venha a nós o vosso reino”, o Reino de Deus.
Não perder a esperança
Se as propostas do Concílio levarão 100 anos para serem adotadas, de acordo com o atual pontífice, podemos pensar que o processo sinodal não será algo que se fará de hoje para amanhã. Haverá momentos e lugares de progresso e outros em que as dificuldades forçarão a desaceleração do ritmo, mas isso não pode desencorajar aqueles que vivem na fé e na esperança.
A questão fundamental é se na Igreja de hoje estamos prontos para construir a catedral gótica, se queremos construir para aqueles que virão depois de nós. Nesse sentido, o Papa Francisco, prestes a completar 88 anos, que provavelmente não colherá muitos frutos do processo sinodal que vem implementando ao longo de seu pontificado, é um verdadeiro testemunho de que, ao tomar atalhos, os perigos aumentam e o risco de não chegar se torna mais plausível, de que vale a pena construir uma catedral gótica, cuja beleza, apesar da demora em alcançá-la, é admirável. Ninguém é obrigado a tomar o caminho mais longo, mas quem escolhe atalhos não deve pensar que sua escolha é a única possível.
O beato será canonizado neste domingo, 20 de outubro de 2024, Dia Mundial das Missões em Roma.
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A Diocese de Roraima e a Família Consolata preparam uma intensa programação para celebrar a canonização de José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, marcada para o dia 20 de outubro, no Dia Mundial das Missões. As atividades incluem momentos de oração, vigílias e missas em diferentes localidades do Brasil.
No dia 18 de outubro, o tríduo em preparação para a canonização terá início nas comunidades, áreas missionárias e paróquias. No dia 19, haverá uma vigília de oração, com saída da Casa dos Missionários da Consolata, localizada no bairro Calunga, até a Paróquia Nossa Senhora da Consolata. No dia 20, a Missa da Canonização será transmitida ao vivo a partir das 3h (horário de Brasília) pela Rede Vida TV, diretamente do Vaticano.
Para encerrar as comemorações, no dia 26 de outubro, será celebrada uma Missa Diocesana de Ação de Graças na Catedral Cristo Redentor, com transmissão ao vivo pelas redes sociais da Diocese de Roraima.
Milagre
O milagre reconhecido pela Santa Sé envolve a cura extraordinária do indígena Yanomami Sorino, da Missão Catrimani, na Terra Indígena Yanomami. Em 7 de fevereiro de 1996, Sorino foi brutalmente atacado por uma única vez, causando graves danos na cabeça. Graças à rápida intervenção dos missionários da Consolata, ele foi levado ao hospital de Boa Vista (RR) para tratamento.
Coincidentemente, o ataque aconteceu no primeiro dia da novena do Beato José Allamano. As missionárias rezaram fervorosamente, pedindo a intercessão de seu fundador. A recuperação de Sorino foi considerada inexplicável pela medicina, e ele hoje vive em sua comunidade indígena com plena saúde. Este milagre foi peça chave no processo de canonização.
Em carta divulgada por ocasião do anúncio da canonização, o bispo de Roraima, Dom Evaristo Pascoal Spengler, ressaltou a importância desse momento: “O anúncio da canonização do Beato José Allamano é um momento de júbilo para a família Consolata, de consolidação da opção evangelizadora da Missão Catrimani, e de confirmação da aliança histórica entre a nossa diocese e os povos indígenas. Esse acontecimento é motivo de vitórias e esperanças, especialmente neste ano em que celebramos 300 anos de evangelização nas terras de Macunaíma.”
A Cura de Sorino e o Processo Diocesano
O missionário da Consolata, Padre Corrado Dalmonego, fala investigação diocesana sobre o milagre de Sorino. “Em 2021, foi realizado o processo diocesano para investigar essa cura extraordinária. Médicos que acompanharam Sorino durante o tratamento e outros envolvidos no caso testemunharam sobre a gravidade de sua condição. No final, os especialistas reconheceram a inexplicabilidade de sua cura.”
Ele ainda destaca a importância das orações feitas na época. “Durante a novena de 1996, de 7 a 16 de fevereiro, as missionárias e a comunidade invocaram a intercessão de Allamano pela saúde de Sorino. As atas desse processo foram enviadas ao Vaticano, que são consideradas legítimas como evidências. Após um longo procedimento envolvendo médicos e cientistas, a cura foi reconhecida como milagre, o que nos permite hoje falar de um verdadeiro milagre.”
Programação de Celebrações em Roraima
A canonização de José Allamano também será celebrada com uma programação especial na Diocese de Roraima. O coordenador da Casa Calungá e do Conselho Regional dos Missionários da Consolata, Padre Oscar Liofo Tongombe, detalha as atividades que estão sendo organizadas para marcar a data.
“Estamos nos preparando para este grande momento, não só na vida dos missionários e missionários da Consolata, mas também para toda a Igreja. O bispo convocou uma comissão para organizar o troduo, a vigília e a celebração no dia 20. As comunidades já iniciaram suas atividades, com momentos de reflexão sobre a santidade, segundo o Beato José Allamano”, explica Padre Oscar.
Ele também fala sobre o tríduo, que será realizado nas comunidades, destacando o tema da santidade. “No primeiro dia, falamos sobre a santidade, de acordo com os pilares de Allamano: ‘Primeiros santos, depois de missões’. No segundo dia, houve um momento de inspiração eucarística, refletindo sobre a real de Cristo na Eucaristia, segundo Allamano. E no terceiro dia, rezaremos o terço, meditando sobre a caminhada das missões nos quatro continentes onde atuamos.”
Padre Oscar ainda reforça que este é um momento especial para toda a Diocese e convida a comunidade a participar das celebrações. “A vigília será uma grande preparação, saindo da Casa dos Missionários da Consolata até a paróquia, onde teremos três horas de oração. Vamos refletir sobre o milagre e a vida de José Allamano, contando com um documentário produzido pela Rádio Monte Roraima para que todos conheçam mais sobre essa história de fé e missão.”
Evangelizar não se reduz a algo metafísico, o importante é como fazê-lo, e a resposta é com palavras e gestos, tocando a carne sofredora de Cristo no povo, lavando os pés. Inspirada pelas palavras do Papa Francisco, a Secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina, Emilce Cuda, iniciou sua intervenção na Tenda da Sinodalidade, onde ela e Alessandro Galassi abordaram a questão da Sinodalidade e dos Movimentos Populares.
Fortalecendo a sinodalidade
A teóloga argentina mostrou seu desejo de fortalecer a sinodalidade, em vista de uma mudança na Igreja, uma conversão estrutural, algo que responda ao fato de que a Igreja é uma reforma permanente, que deve levar a pregar o Evangelho de forma sinodal, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. O importante é fazer coisas concretas, o que pode ser feito pelo caminho longo, o caminho de Francisco, iniciando processos, algo que exige colaboração e paciência, porque não sabemos se veremos os resultados, com a fé de que outros continuarão o caminho, mesmo que seja longo. Em contrapartida, há o caminho curto, os atalhos, aqueles que nos pedem mudanças imediatas, mas que talvez não sejam possíveis agora, pois têm a ver com estruturas.
Passando do mundo católico para o mundo secular, Cuda se referiu à solidariedade, que ela definiu como “uma forma concreta de dizer sinodalidade”. Referindo-se ao tema proposto, ela afirmou que o que hoje é chamado de movimentos populares é conhecido como comunidade organizada há mais de 100 anos. A partir disso, deduziu que “ser sinodal é uma maneira de pregar o Evangelho de forma organizada, de forma comunitária”. Algo que vai além do que Francisco chama de “individualismo comunitário”, que encerra as demandas sociais em suas próprias comunidades, lutando por suas próprias identidades, sem a capacidade de estabelecer laços de solidariedade.
Fazer do sonho do outro o nosso próprio sonho
O desafio é que todo um país, todo um continente, seja uma comunidade organizada, o que se consegue quando há solidariedade entre as demandas, quando há solidariedade e caminhamos juntos, acompanhando as demandas dos outros, de forma colaborativa e intergeracional, em rede, em diálogo, sentindo a necessidade do outro e tornando nosso o sonho do outro. Diante disso, o caminho mais curto é cada um seguir com sua própria demanda, narrativa, anseio, sem cair no desespero e na angústia de não ver resultados imediatos em minha própria vida. De fato, a semente não vê a planta, mas confia que ela se tornará uma planta.
Emilce Cuda pediu a todas as comunidades organizadas que pensem em suas necessidades e sonhos sendo reconhecidos pelos Estados como direitos. Segundo ela, a solidariedade não pode ser algo individual. Por isso, o que vivemos nesse Sínodo “temos que valorizá-lo”, continuar trabalhando nessa sinodalidade, citando várias organizações latino-americanas nesse sentido, como CEAMA, CELAM, REPAM, REMAM, REGCHAG, Rede Clamor, que mostram a riqueza da capacidade de organização da América Latina, de resiliência, de recomeçar sempre, de sonhar. Um continente jovem que luta pela vida, que quer construir pontes com outros continentes, algo que a Santa Sé promoveu por meio da Comissão para a América Latina.
A Europa deve aprender com a América Latina
Uma experiência de sinodalidade que Alessandro Galassi começou a viver com o Sínodo para a Amazônia, e que foi descobrindo ao conhecer vários movimentos populares na América Latina, um continente para o qual a Europa deve olhar com muita atenção para aprender com os processos e como evoluíram esses movimentos populares. Em suas palavras, ele contou o que tem visto no Brasil, na luta pela defesa da água. Nessa perspectiva, o documentarista italiano vê a sinodalidade como a capacidade de estar junto e de levar adiante um processo, que ele vivência em seu trabalho.
Galassi vê a esperança como um antídoto para o medo, para o desejo contemporâneo de viver. Como contraponto, ele define a esperança como o recebimento da mística, algo que vai além do otimismo, uma esperança que se combina com a coragem, exigindo dos europeus a coragem de olhar para a América Latina como um modelo para uma mudança de paradigma, que leva, diante de um Estado, à organização a partir de baixo. De fato, Galassi afirmou que os movimentos populares na Itália e na Europa de hoje precisam de uma mudança de rumo. Ele também refletiu sobre a migração e a mudança climática como algo que a causa, vendo no Papa Francisco o único líder capaz de encontrar uma chave para ler a realidade atual. Olhando para o futuro, ele enfatizou a importância dos espaços de ação, citando alguns exemplos, que ele vê como uma ponte para uma mudança de paradigma. Para isso, ele considerou a escuta como fundamental.
Discernimento para escolher entre o caminho curto e o longo
Para escolher entre o caminho longo e o curto, Emilce Cuda vê a necessidade de exercitar o discernimento. A teóloga falou sobre a realidade das periferias na América Latina, sobre a necessidade de descentralizar o Evangelho, de explicar em linguagem compreensível, especialmente aos jovens das periferias, o que é sinodalidade e solidariedade, para que eles entendam que “ou se unem ou morrem”, algo que muitas vezes são forçados a fazer pela realidade social, Ela deu vários exemplos de solidariedade com e entre os pobres na América Latina, onde “as pessoas têm misericórdia, têm compaixão, mesmo que estejam com raiva, mesmo que ouçam outras histórias”, porque “a América Latina ainda não perdeu a capacidade de sentir o sofrimento dos outros em seus corações”, o que se traduz em solidariedade organizada.
Para Cuda, as virtudes teológicas são uma condição para pregar o Evangelho concretamente, já que a fé em Deus se traduz horizontalmente em confiança, que por sua vez é uma condição para a política. Contra isso há o medo, como aponta Fratelli tutti, onde o Papa adverte contra aqueles que aparecem com seu falso misticismo de salvação comunitária, que acontece quando estamos isolados, o que mostra a necessidade de fazer comunidade. Junto com isso, é necessário traduzir o amor de Deus no campo horizontal, na justiça social. E igualmente uma esperança no horizontal, na ação comunitária, em “uma âncora que devemos jogar para longe e segurar e puxar para poder chegar ao território onde colocamos nossa esperança”, como diz o Papa.
De fato, “o que move os povos e os indivíduos não é a necessidade, é a esperança”. É por isso que em Querida Amazônia o Papa não fala de quatro necessidades, mas de quatro sonhos. Para chegar até nós, não devemos ter medo, devemos aprender a nos comunicar, a contar histórias, sempre superando o medo, mesmo nas periferias, onde as alternativas são muitas vezes desconhecidas. Trata-se de construir pontes a partir de temas, iniciativas e sonhos comuns, da confiança mútua, do diálogo, da busca de exemplos de sinodalidade concreta, de comunidades organizadas, do Evangelho e do Magistério Social da Igreja, “que é o grande monumento que o catolicismo traz para a modernidade”. São histórias que as pessoas teceram, escritas no caso da Teologia de forma transdisciplinar, usando outra linguagem com a qual podemos alcançar mais pessoas.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade está refletindo nestes dias sobre os lugares, entre os quais está, e não pode deixar de estar, o mundo digital, um campo onde a presença do Evangelho está se tornando cada vez mais necessária.
A missão hoje é diferente
Como lembrou Xiskya Valladares, que podemos dizer que foi uma das primeiras a perceber a importância dessa missão no mundo digital, em uma das primeiras coletivas de imprensa desta Segunda Sessão, “nosso mundo mudou, não é mais o que era há 20 anos, a missão é diferente“. A religiosa nicaraguense radicada na Espanha insistiu que, diante das mudanças tecnológicas e da Inteligência Artificial, “a Igreja não pode ficar para trás”.
A missão digital foi uma reflexão muito presente na Primeira Sessão da Assembleia Sinodal, estando presente no Relatório Síntese, que lhe dedica um capítulo, intitulado “Missionários no ambiente digital”, onde se diz que “a cultura digital, portanto, não é tanto uma área distinta de missão, mas uma dimensão crucial do testemunho da Igreja na cultura contemporânea. Por essa razão, ela tem um significado especial em uma Igreja sinodal”.
Não deixar que a missão digital perca força
Pelo que se ouve entre os participantes da Assembleia Sinodal, parece que ao longo desta Segunda Sessão ela vem perdendo força, o que é preocupante, pois distanciaria a missão da Igreja de realidades muito presentes na sociedade atual e de pessoas que muitas vezes têm uma presença muito limitada na vida comunitária.
Como lembrou Siskya Valladares, os missionários digitais, que ela considera um novo carisma na vida da Igreja, sentem “a forte vocação de acompanhar aqueles que não estão na Igreja, aqueles que foram batizados e saíram, mas ainda sentem uma preocupação com a verdade, com o amor de Deus, e que às vezes até andam feridos no mundo, também por causa de suas experiências ruins com pessoas da Igreja”.
Testemunho da ternura e da misericórdia de Deus
Francisco insiste, como uma vez deixou claro para “a freira no Twitter”, na necessidade de ser uma testemunha da ternura e da misericórdia de Deus para com todos. Um testemunho que o pontífice pediu que ela realizasse no mundo digital. A esse respeito, lembro-me de uma situação pela qual passei anos atrás, quando não se falava em missão digital. Um jovem, que eu nunca conheci pessoalmente, começou a me escrever pelo Messenger, e eu tentei acompanhá-lo nas dificuldades que ele estava enfrentando. Meses depois, ele me disse que esse acompanhamento, essa missão digital que eu realizei, o impediu de cometer suicídio.
Elas podem ser consideradas especulações sem sentido, mas ouso dizer que minha missão digital salvou uma vida. Naquela ocasião, pude testemunhar o que o Papa propõe, a ternura e a misericórdia de Deus. Portanto, não podemos nos esquecer de algo sobre o qual a Igreja parece estar se tornando mais consciente de sua necessidade. Nesse sentido, não há melhor ocasião do que um Sínodo da Igreja Católica universal para insistir nessa missão digital, se realmente quisermos dar respostas à realidade de hoje.
Mas não podemos nos esquecer da maneira pela qual essa missão digital é realizada. Volto novamente à ideia de que na Igreja sinodal o modo é superior ao conteúdo. E a maneira de realizar essa missão é na sinodalidade, juntos, um grande desafio, dado o sentimento individualista tão presente na sociedade atual, especialmente entre as gerações mais jovens, estrato etário no qual se encontra a maioria dos chamados influenciadores digitais.
Formação e acompanhamento
Também para a missão digital, a formação e o acompanhamento são necessários. Diante da tentação de pensar que estou dizendo a última verdade, o grande desafio é estabelecer canais de comunhão na missão digital. Ser missionário digital em uma Igreja sinodal é promover caminhos comuns, acompanhando o que a Igreja, por meio da proclamação do Evangelho e do Magistério, incluindo o do Papa Francisco, nos propõe. Diante da polarização nas redes sociais, a alternativa é a comunhão, a sinodalidade, um caminho comum.
A missão digital precisa ser purificada, mas nunca abandonada. Não percamos a oportunidade deste Sínodo de oferecer a Boa Nova às centenas de milhões de pessoas que hoje habitam o continente digital. Jesus enviou seus discípulos até os confins da terra e, guiados pelo Espírito, eles conseguiram testemunhar essa mensagem nos vários areópagos, hoje também no mundo digital em constante mudança.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1
A Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre a Sinodalidade está prestes a concluir as reflexões sobre o terceiro Módulo do Instrumentum Laboris, que fala de lugares. Nas últimas horas, duas questões foram destacadas, de acordo com Sheila Pires, secretária da Comissão de Comunicação: Como configurar a participação numa chave missionária num contexto de tempos de mudança face aos fenómenos da mobilidade humana na cultura do ambiente digital, o que somos chamados e estamos dispostos a adotar, quais os obstáculos e o que promover. E o segundo tema, que teve a ver com a sinodalidade como colegialidade e primado, o papel da Cúria Romana à luz da Praedicate Evangelium, o Sínodo universal, as assembleias eclesiais e continentais, assim como os sínodos e os concílios particulares.
Temas abordados
Foi falado sobre as dificuldades e o drama dos migrantes, a criação de uma Assembleia Eclesial Mediterrânea, uma região onde as igrejas têm criado estruturas de redes. Foi abordada a questão de novas propostas para o atendimento aos jovens, a reconfiguração das paróquias em redes de pequenas comunidades, como caminho para agilizar a sinodalidade. O trabalho da Rede Talitha Kum, com os migrantes e vítimas do tráfico de pessoas, o acompanhamento sem paternalismos das pessoas com necessidades especiais, a necessidade de abalar as consciências dos católicos com relação aos pobres, a presença da Igreja onde o Espírito sopra, nas encruzilhadas, lugares de sinodalidade e não se fechar em lugares seguros.
Por sua vez, o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, destacou o serviço da Vida Religiosa, a importância da relação entre sinodalidade e primazia, com a contribuição das igrejas orientais, as contribuições dos fóruns teológicos, o papel das conferências episcopais, como responder às perguntas da cultura e do contexto. Junto com isso, o valor das igrejas locais, o papel dos bispos, a necessidade de não ter medo da sinodalidade, o status das conferências episcopais, a importância da escuta do Papa aos fiéis e a centralidade da Eucaristia, entre outras questões. Finalmente, Ruffini lembrou que nesta sexta-feira haverá um encontro dos membros da Assembleia Sinodal com mais de 150 jovens na Sala Sinodal.
O Sínodo mostra a universalidade da Igreja
O processo sinodal está sendo vivido pela Irmã Samuela Maria Rígon como uma experiência da universalidade da Igreja, que ela também experimenta em sua congregação, uma oportunidade de entrar em contato com realidades das quais ninguém fala, com diferentes vocações e papéis, dada a diversidade da Assembleia Sinodal, onde todos podem falar e que é um sinal de abertura. A Superiora Geral das Irmãs de Nossa Senhora das Dores, diante das polarizações, propõe viver as polaridades, a diversidade.
Na Assembleia há uma centralidade das relações, segundo a Irmã, razão pela qual ela vê a necessidade de retornar à ideia original da Igreja, tendo em mente que Jesus lidava com os outros através de relações fraternas, algo que deve estar presente nas relações entre pessoas, culturas, igrejas. No caminho de renovação da Igreja, é necessário ler os acontecimentos à luz do sopro do Espírito Santo e seguir o exemplo de Jesus para encontrar as pessoas onde elas vivem e sofrem.
O Sínodo na Ásia
O Cardeal Charles Bo explicitou a conexão entre o caminho sinodal e seu efeito na Ásia. A partir daí, ele lembrou o que o Papa Francisco pediu às igrejas da Ásia em uma de suas viagens, convidando-as a olhar para frente. No processo sinodal, ele enfatizou a importância da conversa espiritual, do reconhecimento da importância do batismo e da participação de todos na tomada de decisões, incluindo os jovens, para os quais ele pediu que levassem em conta a importância da evangelização virtual.
O Arcebispo de Rangoon (Mianmar) refletiu sobre o desafio da cultura para a sinodalidade e a necessidade de mais recursos para promover a sinodalidade na Ásia, onde as grandes distâncias dificultam a caminhada conjunta. Ele também se referiu ao desafio de confrontar o clericalismo por meio da prestação de contas, ainda mais quando há membros do clero que se sentem ameaçados pela sinodalidade. Da mesma forma, em meio a sociedades patriarcais, ele refletiu sobre as dificuldades para as mulheres assumirem papéis de liderança. Ele também se referiu aos seminários, às conferências episcopais, como um instrumento para promover a colaboração entre as igrejas locais em vista do trabalho pastoral. “A Igreja Asiática, apesar dos desafios, quer ser uma Igreja sinodal, escutando a todos e acolhendo a todos”, concluiu.
Precisamos escutar
“Essa experiência sinodal é muito importante porque precisamos escutar”, disse o cardeal Gérard Lacroix. No processo desde 2021, toda a Igreja está escutando a Palavra de Deus e os outros, de acordo com o arcebispo de Quebec (Canadá), que pediu para ouvir não apenas dentro da Igreja, mas também todos os nossos irmãos e irmãs. “Estamos nos preparando para sermos homens e mulheres que escutam os outros, mesmo aqueles que pensam de forma diferente”, disse ele. Uma dinâmica que ele vê como um testemunho para o mundo de que é possível escutar uns aos outros e fazer um bom discernimento, já que no mundo de hoje as pessoas não ouvem e pensam em resolver os problemas com armas e bombas.
“Estamos na assembleia para escutar as diferentes realidades”, de acordo com o arcebispo, que vê isso como uma experiência maravilhosa, que vê o desafio de viver isso nas igrejas locais para discernir as grandes questões que afetam o mundo, as questões candentes que precisam ser aprofundadas para sermos crentes confiáveis. Trata-se de fazer isso por meio da sinodalidade, sentando-se juntos como uma comunidade de discípulos de Jesus para escutar juntos o que Deus está nos dizendo. Lacroix vê a grande dádiva deste sínodo na conversa no espírito, unindo-nos em torno de mesas, escutando a Deus e uns aos outros. Algo que já está dando frutos, “não estamos buscando resultados, estamos buscando a santidade, os frutos do Reino de Deus”, enfatizou. Para isso, “precisamos continuar discernindo e lidando com essas questões, ouvindo o Deus fiel que está sempre ao lado das pessoas no caminho”.
Três conversões sinodais
Dom Pedro Cipollini destacou a questão das mudanças como tema transversal, insistindo em que no processo sinodal alguma coisa deve mudar. Mudanças que na linguagem bíblica são chamadas de conversão. Por isso sublinhou que o Sínodo está exigindo mudança, conversão. O bispo de Santo André falou sobre três conversões: pastoral, que tem a ver com o modo de exercer a missão, também na mídia, alargar os lugares de evangelização; conversão estrutural, mais desafiadora, tendo como horizonte o Reino de Deus; conversão espiritual, a partir do encontro com a pessoa de Jesus, que é a referência, ponto de partida e de chegada, insistindo na importância da Palavra de Deus e do testemunho pessoal de vida. “As palavras podem convencer, mas é o testemunho que arrasta”, enfatizou dom Pedro Cipollini. Ele defendeu a necessidade de uma mudança racional e emocional, e para isso se faz necessário “aprender a dar adeus a coisas antigas que já cumpriram sua missão e acolher o novo que está chegando neste Sínodo”.
Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1