O lançamento das obras ocorreu na comunidade Barro, em Surumu, TI Raposa Serra do Sol, local da primeira Assembleia dos Povos Indígenas de Roraima
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Lançamento dos livros “Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)”. Foto: Rede Wakywaa de Comunicadores do CIR
“Antes de estarem nas páginas de um livro, essas histórias foram vividas nos territórios. Histórias de resistências, mobilizações e lutas que atravessaram gerações e continuam presentes nos dias de hoje”. Assim, a comunicadora do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Luara Sapará, inicia sua fala sobre o lançamento dos livros de Egydio Schwade, um dos precursores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e do professor e historiador Tiago Santos, que contam as histórias e a trajetória do indigenista e sua contribuição com o movimento indígena e suas lutas por demarcação territorial e em defesa de seus direitos, culturas e formas de vida.
“Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)” são as obras de Egydio e Tiago, respectivamente. A primeira traz uma coletânea de textos de Egydio sobre os momentos de tensão e/ou vitória do movimento indígena ao longo de sua trajetória missionária. A obra de Tiago, por sua vez, resultado da tese de doutorado desenvolvida pelo professor, traz um recorte da biografia de Egydio que abrange períodos da repressão militar, responsável pelo genocídio de muitos povos indígenas.
“É através dessas vivências e lutas de nossos antepassados que, no dia 31 de agosto, na comunidade indígena Barro, região Surumu, no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, o lançamento das obras foi realizado, com a presença de lideranças tradicionais, alunos e convidados, entre eles o Conselho Indígena de Roraima”, conta Luara em sua narração, destacando-se como jovem indígena que dá continuidade ao legado de luta e resistência de sua ancestralidade.
Luara é uma jovem de 26 anos, da região Amajari, Terra Indígena Aningal, em Roraima, estudante de jornalismo na Universidade Federal de Roraima, e diz que escolheu essa profissão para, justamente, registrar e contar as histórias dos povos indígenas. “As nossas histórias”, diz Luara.
“Atuo como comunicadora indígena desde 2020, quando se intensificou o período da pandemia. Desde então, estou na comunicação e, por isso, fui motivada a fazer jornalismo. Para poder contar a nossa história. Participei de um projeto de iniciação científica que era, justamente, para ouvir e contar as histórias de nossas lideranças, de como foram as lutas, de como foi a demarcação de nossos territórios. Só assim, iremos saber como nossa história aconteceu de verdade”, afirma Luara.
“Eu costumo dizer que os nossos anciãos são os nossos livros vivos, e temos que aproveitar essas oportunidades. Hoje, eu não sei muito sobre o meu povo, é um povo quase extinto, não sei falar a minha língua Sapará e muito menos sei da nossa história. Mas, hoje busco saber mais sobre o povo Sapará. Então, essas histórias [dos livros] são fundamentais para que a gente possa conhecer e entender a nossa cultura, o nosso povo, os nossos antepassados. E poder registrar esses momentos”, declarou.
“Todos esses senhores e os anciões nos informaram que essa terra era nossa. E que tínhamos que nos unir e lutar por ela”
Lançamento dos livros “Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)”. Foto: Rede Wakywaa de Comunicadores do CIR
Um apanhado de histórias
A escolha da comunidade Surumu para fazer o lançamento das histórias de Egydio e seu “indigenismo encarnado”, com o apoio do professor Tiago, teve sua raiz no ano de 1971, quando aconteceu a primeira Assembleia dos Tuxauas, na mesma comunidade Barro, em Surumu, região integrada à TI Raposa Serra do Sol.
A Assembleia foi um marco na organização, resistência e nas conquistas dos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingarikó, Sapará e Patamona, que têm até hoje como símbolo histórico de união e resistência coletiva um feixe de varas: “uma vara sozinha é fácil de quebrar, mas todas juntas, unidas, ninguém quebra, impede a ação de invasores”, explica o CIR, que adotou o feixe de varas como representação simbólica da força que têm as suas comunidades unidas.
Foram décadas de sofrimento, enfrentando violências, crimes e invasões de fazendeiros até as lideranças realizarem a primeira assembleia na região. Depois dela, mais 30 anos se passaram para a conquista da demarcação do território. Hoje, a união consagrada naquela assembleia e nas conquistas que alcançaram no decorrer dos anos continua sendo o principal pilar de resistência contra novas ameaças.
Emocionada com as memórias que testemunharam a força da união dos povos indígenas, a Pajé Mariana Macuxi, da comunidade Barro, lembra das palavras dos Tuxauas Jacir Macuxi, da comunidade Bem Viver, e de Damásio Galé, já falecido, que era da comunidade do Perdiz, do Baixo Cotingo, lideranças que estavam, à época, na linha de frente nas articulações dos “parentes” e no enfrentamento dos políticos e fazendeiros, e que animavam e conclamavam para que os povos se unissem.
“Eu lembro quando o Jaci falava junto com o finado Damásio: ‘vamos se unir, vamos trazer coisas boas para nós e vamos demarcar nossa terra’. Eu agradeço muito, Paapa [Deus em Macuxi], porque ele me deu essa sabedoria. Ele me trouxe aqui na terra para mostrar que eu tenho mesmo a minha responsabilidade com o povo, entender a união e ter amor”, declarou.
Também emocionado, o Tuxaua Alcides Macuxi, da comunidade Barro, lembra dos “parentes” Raimundo Macuxi II, da comunidade Teso do Gavião, da TI Aningal, e Damásio, e relata o que viu e ouviu das lideranças, o que sofreram e os motivos que os impulsionavam a lutar.
“Eu lembro bem, o Raimundo Dois, assim que chamavam ele, foi em 1971, em uma reunião no Aningal, a gente tem muitas fotos de como as coisas realmente aconteceram com nossos parentes, veio muita violência, eles foram baleados, marcados com ferro quente”, lembra.
“Os anciões nos informaram tudo o que eles passaram [na luta pela demarcação do território]. Todos esses senhores e os anciões nos informaram que essa terra era nossa. E que tínhamos que nos unir e lutar por ela. E foi em 1987, fizemos um acordo que essa luta começou e ninguém ia parar mais. Onde tivesse violência contra os povos indígenas, as quatro regiões se uniriam para poder ajudar aquela região, aquela comunidade que estava sofrendo”, afirmou.
“Dia 5 de maio de 1988 fomos para a comunidade do Laimã, na região da Serra. Lá, já tinham queimado o retiro [lugar que estavam reunidos] dos parentes, a polícia tinha queimado. E nós fomos e tínhamos a ordem [entre nós], nenhum fazendeiro podia mexer com algum indígena que estivesse lá. Nós enfrentamos essa dificuldade e nós conseguimos, porque nós estávamos com as quatro regiões unidas”.
“E lá fomos presas 120 pessoas, foram levadas para Boa Vista, segundo eles [a polícia] era para conversar com o juiz e com as pessoas lá. [Depois elas foram libertadas] mas, lá ficamos 22 lideranças presas, passando 38 dias na cadeia. Eu sou uma das pessoas que vi, porque eu estava lá, fiquei preso durante esses 38 dias. E não tinha ninguém por nós. A Funai não estava por nós. Ao contrário, a Funai era muito contra a gente, dizia que estávamos invadindo a propriedade dos fazendeiros. Mas ninguém baixou a cabeça e caminhamos. E assim nós conseguimos vencer toda essa dificuldade, e onde os brancos diziam que era deles, nós começamos a ocupar a terra”, contou, relatando a conquista da demarcação da TI Raposa Serra do Sol.
O Tuxaua celebra a conquista e a dedica às lideranças que, apesar de tudo, persistiram e incentivaram as novas lideranças a continuar na luta, pelas novas gerações. “O Tuxaua Damásio trabalhou muitos anos e já com mais idade, ele repassou o cargo para mim. Eu assumi com orgulho esse cargo, eu tinha 21 anos de idade. E foi quando eu aprendi [a lutar], porque os anciões nos repassaram todo esse trabalho. E continuamos fazendo. Infelizmente alguns deles não chegaram a ver a terra demarcada, mas nós fizemos”, disse com orgulho.
Os livros de Egydio e Tiago também foram apresentados às comunidades acadêmicas das Universidades Federais do Amazonas e Roraima e na Universidade Estadual do Amazonas.
“Quanto mais nós apoiamos e nos dedicamos aos mais fracos e injustiçados, mais engradecemos a humanidade”
Lançamento dos livros “Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)”. Foto: Rede Wakywaa de Comunicadores do CIR
Os autores
Foram por essas histórias de força, coragem, resistência e conquista dos povos indígenas de Roraima, e para celebrar a vida das lideranças que as iniciaram, que Egydio e Tiago optaram pela região de Surumu para levar seus registros transformados em livros.
Sentindo a mesma emoção das lideranças que os receberam depois de tantos anos, Egydio declara a sua volta a Surumu. “Eu sinto bastante emoção de estar aqui, por estar de volta, justamente, aqui, nessa aldeia do Barro, onde passei umas horas, poucas, mas talvez as mais importantes da minha opção pela luta indígena”, confessou.
“Como jovem, eu tinha a vontade de trabalhar e dedicar a vida aos povos e às gentes que mais necessitassem. Isso me levou ao Seminário dos Jesuítas. E, em 1963, fui ao Mato Grosso trabalhar com nove povos indígenas daquela região”, conta Egydio.
“Precisávamos mudar a forma de estar junto com os indígenas. Ao invés de trazer os indígenas, especialmente as crianças, retirando elas das aldeias, era necessário encarnar-se na realidade indígena, indo até seu chão, conhecendo e vivendo suas dores e modos de vida e existência. Não mais doutriná-los, mas colher as sementes de Deus ocultas nos povos, porque realmente os valores de Deus estão escondidos nos povos, lá no chão onde vivem”.
“Os livros trazem a perspectiva histórica, a importância da causa indígena, das lutas ecológicas, de uma política pública que seja comprometida com o povo […]”
Lançamento dos livros “Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)”. Foto: Rede Wakywaa de Comunicadores do CIR
Para o professor Tiago, as mudanças no indigenismo da igreja foi um dos enfoques importantes em sua pesquisa sobre a trajetória do Egydio. “O livro vem discutir temas da década de 70 sobre a renovação do indigenismo na Igreja Católica, a chegada dos leigos, a criação de instituições não governamentais que vão apoiar a causa indígena e que vão enfrentar a política genocida dos governos militares, sobretudo para a Amazônia e também outras regiões do país, com os povos indígenas remanescentes”.
“A partir de um momento muito duro, que foi a década de 60, os povos indígenas viram fortalecer um conjunto de aliados, do qual Egydio fez parte, tanto na igreja católica como nas universidades. Essa resistência à ditadura militar e aos grandes projetos criou uma animosidade com a política indigenista oficial. E, lógico, os missionários também se tornaram alvo dos órgãos de segurança”, aponta o historiador.
Tiago também comenta que seu livro traz contribuições para discutir questões contemporâneas que estão se colocando para os indígenas na conjuntura política atual, e que a luta indígena deve ser registrada pela importância histórica que tem, pensando na juventude e nas futuras gerações.
“Os livros trazem a perspectiva histórica, a importância da causa indígena, das lutas ecológicas, de uma política pública que seja comprometida com o povo e não só com interesses excusos dos políticos em Brasília. Todo esse conjunto de ações ganha um conjunto significativo de histórias e memórias para que também a juventude possa se perceber em um contexto tão distópico em relação às questões ecológicas, ambientais, das políticas públicas orientadas pelos direitos humanos”, elenca o professor.
“Há 60 anos se falava que a questão indígena era uma causa perdida. Hoje, ninguém mais diz isso”
Lançamento dos livros “Memórias das Lutas à Construção do Indigenismo Encarnado” e “Da Causa Perdida ao Indigenismo Encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972 – 1980)”. Foto: Rede Wakywaa de Comunicadores do CIR
Egydio, ao olhar para as novas formas de ataques aos territórios e direitos indígenas que em tempos atuais ainda acontecem, faz um retorno aos ensinamentos dos antepassados.
“Acredito que os povos indígenas, suas lideranças e organizações, devem cuidar e compreender que existem muitas divisões de opiniões entre os povos indígenas e que na raiz disso está a situação de dependência, muitas vezes eletrônica. Estamos todos sendo bombardeados a partir da sociedade mercantil, em cima dos recursos naturais e dos povos indígenas, principalmente minérios, florestas, etc. Então, é preciso dar um basta nisso. E só uma união maior entre os povos indígenas vai garantir isso”, alertou o indigenista.
“Uma coisa muito positiva que ocorreu nesses últimos 60 anos, que atingiu todos os povos remanescentes indígenas do país, foi esse engrandecimento da população e, também, a ampliação das áreas de domínio deles, que continua acontecendo. Há 60 anos se falava que a questão indígena era uma causa perdida. Hoje, ninguém mais diz isso”, destaca Egydio, argumentando que a intensidade da luta evidenciou a existência indígena, inclusive “deixando o país mais bonito, com enfeites dos povos indígenas que coloriram o Brasil”.
Egydio ainda faz referência aos aliados que os povos indígenas têm em suas lutas, pois o avanço das explorações e destruição dos recursos naturais, compromete a todos. Se referindo à importância dos registros dos fatos e histórias, inclusive pelos comunicadores indígenas presentes no lançamento, falou da necessidade de registrar a história para fortalecer tais apoios. “Os povos indígenas vão ter cada vez mais apoio de aliados da sociedade nacional. E é importante sentir esse apoio. Registrando os fatos se conhece a realidade”, relevou, enfatizando que “o conhecimento mora na aldeia e não na Esplanada dos Ministérios”.
Para o missionário que dedicou sua vida à causa indígena e que sempre ouviu dos não indígenas que “essa era uma causa perdida”, a fé nos valores e a esperança na humanidade mostrou que não, os indígenas não perderam, e sua opção de vida foi acertada.
“Quanto mais nós apoiamos e nos dedicamos aos mais fracos e injustiçados, mais engradecemos a humanidade. Quanto mais nós a respeitamos, mais cresce a esperança para a existência do planeta”, profetiza e destaca a frase em latim “Non coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – Não deixar-se limitar pelo máximo, mas caber no mínimo. Isso é divino”, dedicada a Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus.
FONTE: Por Lígia Apel, da assessoria de comunicação do Cimi Regional Norte I
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