Papa Prevost, a escolha de Francisco para continuar o processo

A Igreja Católica tem um novo Papa. Depois de cuatro votações, o sucessor de Pedro foi anunciado, mas poderíamos dizer que, nesse caso, o sucessor de Francisco foi anunciado. O primeiro Papa latino-americano tem continuidade em alguém que cresceu em sua vocação e experiência eclesial na América Latina, especificamente no Peru.

Missionário e bispo no Peru

Nascido em Chicago (Estados Unidos), como jovem agostiniano escolheu o Peru para ser missionário em uma terra onde se tornou bispo da diocese de Chiclayo. Anteriormente, durante 12 anos, havia sido Superior Geral da Ordem de Santo Agostinho, período em que morou bem próximo à Praça de São Pedro, de onde uma rua separa a sede da Casa Geral dos Agostinianos.

O novo papa pode ser considerado um construtor de pontes entre o Norte e o Sul, dado seu local de nascimento e missão. Mas ele também é alguém que realizou essa tarefa em nível global, já que os agostinianos realizam sua missão em todo o mundo. Essa é a função do bispo de Roma, ser um pontífice, um construtor de pontes.

A secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina, a teóloga argentina Emilce Cuda, que trabalhou com o cardeal Prevost desde que ele foi nomeado prefeito do Dicastério para os Bispos, um dos mais importantes da Cúria do Vaticano, tem se dedicado a construir pontes entre o Norte e o Sul desde que chegou ao Vaticano.

A escolha de Francisco

Cuda não hesita em afirmar que o novo Papa “foi o escolhido de Francisco”, com quem se encontrava todos os sábados em Santa Marta. A teóloga enfatiza que “Francisco deu muitos sinais de que depositava sua confiança nele”, uma afirmação que deriva de sua proximidade com o último pontífice, com quem trabalhou diretamente. De fato, diz ela, Francisco “o colocou em um dos lugares-chave da Cúria Romana, que é o dicastério dos bispos”. Além disso, ele foi nomeado cardeal bispo, o que o fez crescer exponencialmente no Colégio de Cardeais.

A secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina insiste na sensatez da escolha, pois considera o novo Papa, seu superior direto até a morte de Francisco, “uma pessoa de grande capacidade de decisão, o que não é fácil de encontrar”. Cuda o define como alguém “de poucas palavras e talvez também não muito expressivo, como todos os norte-americanos. Mas há uma distinção entre latino-americanos e norte-americanos, os primeiros falam e outros agem. Acho que o Cardeal Prevost tem a virtude de ser capaz de apoiar com ambos”, enfatiza.

Carisma é a capacidade de mobilizar

Sobre esse ponto, ela afirma que “embora alguns digam que ele não tem carisma, o carisma não é apenas a capacidade de fazer um show. Carisma é a capacidade de mobilizar as pessoas em uma direção e em uma ação, sem pressão, mas sim para conseguir essa conversão, para ir junto”. Para a teóloga, ter essas características “é o que nos dá a certeza de que ele pode ir adiante com o processo que Francisco iniciou”. Isso porque “o Papa disse que tínhamos que falar sobre processos, tínhamos que iniciar processos”.

A teóloga argentina recorda os quatro princípios bergoglianos. “Quando Francisco disse que o tempo é superior ao espaço, esse tempo é um processo. Não se trata de ganhar esse espaço, mas de levar adiante um processo, que não termina em uma geração. É por isso que ele fala de um povo, porque é um povo que leva esse processo adiante. Acho que o Cardeal Prevost tem a capacidade de levar esse processo adiante. Não apenas por causa do desejo de continuar, mas também porque é preciso ter a mesma virtude de ser capaz de tomar a decisão certa no momento certo, como fez Francisco”.

Uma pessoa corajosa

Entre as capacidades do novo Papa, Cuda destaca que “ele é uma pessoa corajosa”, algo que ele diz ter visto em várias ocasiões, “onde ele não tinha medo de tomar essas decisões e assumir a responsabilidade pelas consequências que poderiam surgir”. Além disso, ela o define como “uma pessoa sensível, mas, ao mesmo tempo, carinhosa, risonha e, quando você diz a ele algo irônico, ele logo começa a rir. Quando o conheci, não achei que ele pudesse ser o Papa, mas fiquei impressionada com o frescor com que ele ri espontaneamente da ironia, das piadas. E isso fala de uma pessoa espontânea, uma pessoa natural. Ele sempre tem um sorriso no rosto”.

Cuda diz que não é possível, nem se pretende, “fazer um culto à figura de Francisco, como foi feito com outros pontífices, é seguir o processo, o que também implica uma mudança. Há continuidade no processo, mas a situação histórica muda e esse processo deve ser flexível o suficiente para se adaptar a essa mudança histórica”. Por essa razão, ele não hesita em dizer que “o Cardeal Prevost não é um daqueles que vai fazer um culto a Francisco, mas vai seguir o processo, tendo a capacidade de tomar decisões para fazer as mudanças ou modificações necessárias exigidas pelo conflito histórico em um determinado momento”.

Um americano para uma nova lógica global

Analisando alguns dos papados recentes, a Secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina considera que “Paulo VI foi a pessoa certa em um momento em que o socialismo passou pelo voto e a Igreja tinha alguém com capacidade de dialogar com aquele momento político histórico. João Paulo II vem da Polônia, um país comunista, e travou a batalha naquele momento histórico. O Papa Francisco vem da América Latina, o berço do populismo, e teve a capacidade de lidar com essas categorias e dialogar com o populismo”.

Seguindo essa lógica de análise, ela afirma que “hoje o mundo está claramente distribuído de uma forma geopolítica diferente, e acredito que quem tem a capacidade de dialogar com os Estados Unidos, com sua nova fase – alguns podem chamá-la de imperial, eu a chamo de neofeudalismo – será um norte-americano que possa falar e entender essa lógica”. É por isso que Cuda conclui que “ele é a pessoa certa para este momento da história”.

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Luis Miguel Modino

Leão XIV: O papado continua na América

“Habemus Papam”, a frase mais esperada nos últimos dias, foi pronunciada pelo protodiácono, Cardeal Dominique Mamberti. Depois de cinco votações, o Cardeal Robert Prevost, que de agora em diante será conhecido como Leão XIVpareceu na Loggia Central da Basílica de São Pedro.

Um norte-americano peruano

Com sua eleição, podemos dizer que o papado continua na América, em toda a América, pois o agostiniano nascido em Chicago (EUA) cresceu como religioso no Peru, país onde se tornou bispo da diocese de Chiclayo entre 2015 e 2023. Uma diocese aparentemente de pouca importância, mas que agora entrará para a história como a única em que o novo Papa foi bispo. Foi lá que Francisco o procurou para assumir o Dicastério dos Bispos, um dos mais importantes da Cúria Vaticana.

Antes de retornar ao Peru como bispo, onde viveu por 12 anos, em 1985 e 1986 e de 1988 a 1998, o novo Papa foi geral da Ordem de Santo Agostinho de 2001 a 2013, período em que viveu bem próximo à Praça de São Pedro, de onde uma rua separa a sede da Casa Geral dos Agostinianos. Esse aspecto destaca sua capacidade de governar por um longo período uma das maiores ordens religiosas.

Um cardeal próximo a Francisco

Estamos diante de um pontífice, um autêntico construtor de pontes, a quem o Colégio de Cardeais, sob a inspiração do Espírito Santo, confia para ser o sucessor de Pedro e de Francisco, com quem, nos últimos anos, ele se reuniu todos os sábados durante duas horas em Santa Marta.

Encontros nos quais Francisco e o Prefeito do Dicastério dos Bispos procuraram concretizar, neste momento da história, como tornar realidade um processo que agora continua de maneira diferente, mas com o mesmo objetivo: avançar na Igreja proposta pelo Concílio Vaticano II, uma Igreja povo de Deus, uma Igreja de todos, todos, todos.

Luis Miguel Modino

Conclave: Fumaça preta sai da chaminé após primeira votação

Conclave: Fumaça preta sai da chaminé após primeira votação

O sinal foi dado às 16h horario de Brasília e (20h) em Roma, confirmando que o processo para a escolha do novo papa continua.

Conclave: Fumaça preta sai da chaminé após primeira votação
Fumaça preta sai no primeiro dia do conclave para a escolha do novo papa, no Vaticano Crédito: VaticanNews/Reprodução

A tradicional fumaça preta saiu da chaminé da Capela Sistina nesta quarta-feira (7), sinalizando que os cardeais reunidos em conclave não chegaram a um consenso sobre o novo líder da Igreja Católica. A fumaça escura representa o resultado da primeira votação do conclave, que também foi a única realizada neste primeiro dia de deliberações.

Para que um novo papa seja eleito, é necessário que um dos cardeais receba pelo menos dois terços dos votos dos eleitores. Somente nesse caso, será emitida a famosa fumaça branca, que anuncia ao mundo a escolha do sucessor de São Pedro.

A partir desta quinta-feira (8), o conclave poderá realizar até quatro votações por dia, nos seguintes horários (horário de Brasília):

  • 5h30 – Fim da votação; só haverá fumaça se um papa for eleito
  • 7h00 – Caso não haja eleição, sairá fumaça preta
  • 12h30 – Nova votação com possibilidade de fumaça branca, se houver consenso
  • 14h00 – Caso não haja eleição, sairá novamente fumaça preta

Caso nenhum candidato alcance os dois terços necessários, o conclave continuará nos dias seguintes com o mesmo ritmo de votações até que se chegue a uma decisão.

A Capela Sistina, no Vaticano, segue isolada para garantir o sigilo do processo, que é um dos mais antigos e solenes da tradição católica.

 FONTE/CRÉDITOS: Da redação Dennefer Costa – com informações do Vaticam News

Oração, escuta, diálogo, discernimento para caminhar juntos. A missão dos cardeais até 7 de maio

Oração, escuta, diálogo, discernimento para caminhar juntos. Esse será o caminho, a missão que o povo de Deus espera que seja assumida pelos cardeais até 7 de maio, data que marca o início do Conclave em que será eleito o sucessor de Francisco.

Um caminho de quase 2000 anos

Nas próximas seis congregações gerais, o Colégio Cardinalício, mas especialmente os 134 cardeais que se espera entrem dentro da Capela Sistina no dia 7 de maio, são desafiados a colocar em prática a sinodalidade, a caminhar juntos. Em definitiva a ser Igreja, a superar as divisões, polarizações, enfrentamentos de todo tipo, para poder em comunhão escolher aquele que irá dar continuidade a um caminho iniciado quase 2000 anos atrás.

Estamos diante do Conclave mais diverso na história da Igreja. Dado o alto número de participantes, que demanda 89 votos para ser eleito, e a diversidade de procedências, não deve ser tarefa simples encontrar aquele que irá ocupar a Cátedra de Pedro. Daí a importância das congregações gerais, sempre necessárias, mas que podemos dizer são imprescindíveis neste momento prévio ao início do 267º Papado.

Desafio: conhecer todos os cardeais

Muitos dos cardeais não se conhecem. Dificilmente algum dos cardeais eleitores saberia reconhecer olhando as fotos, os nomes e o serviço desempenhado para cada um dos 134 participantes do Conclave. O conhecimento de cada um dos eleitores, uma tarefa que deve ser realizada até dia 6 de maio, poderá facilitar o propósito que quer ser alcançado na Capella Sistina: escolher o pontífice.

Cada um de nós, evidentemente também os cardeais eleitores, tem o retrato robô daquele que deve ser o próximo Papa. O desafio é superar aquilo que cada um espera, pois na primeira votação tudo indica, como é tradição na história dos conclaves, a diversidade de cardeais votados aponta a ser elevada. Para isso, se faz necessário, inclusive uma obrigação, escutar.

Gerar unidade na Igreja e no mundo

Escutar a Deus, escutar os outros cardeais eleitores e escutar o povo de Deus. Escutar para descobrir aquilo que a catolicidade, mas também a humanidade como um todo, espera do próximo pontífice. Um Papa que possa gerar unidade na Igreja, incentivar a comunhão, a sinodalidade, o caminhar junto. Mas também um Papa que ajude o mundo a superar a guerra em pedaços que estamos vivendo, a polarização cada vez mais presente na vida do dia a dia.

São elementos que devem ajudar no processo de discernimento, e assim descobrir o que Deus através de seu Espírito está querendo desses 134 cardeais, mas sobretudo o que Ele espera da Igreja. Uma Igreja profética, misericordiosa, samaritana, mais preocupada em curar as feridas dos descartados que seu próprio bem-estar.  

Luis Miguel Modino

7 de maio: o Colégio Cardinalício escolheu a data do Conclave

O Conclave que irá eleger o sucessor de Francisco já tem data marcada. Será na tarde de dia 7 de maio, depois de celebrar a Missa Pro Elegendo Pontífice na manhã da próxima quarta-feira. Isso foi decidido na Congregação Geral realizada nesta segunda-feira, 28 de maio, na Sala do Sínodo, no Vaticano.

Primeira Congregação Geral para o cardeal Steiner

Estavam presentes 180 cardeais, dentre eles mais de 100 eleitores. Dessas congregações, a quinta realizada desde seu início na terça-feira 22 de abril, um dia depois do falecimento de Papa Francisco, participou pela primeira vez o arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos de Brasil (CNBB Norte 1), cardeal Leonardo Ulrich Steiner.

Segundo informações vaticanas, na quinta congregação teve perto de 20 intervenções, sendo refletido sobre a situação da Igreja nos dias de hoje, sua relação com o mundo, os desafios a serem enfrentados e as qualidades que devem estar presentes no próximo Papa.

Na congregação geral desta segunda-feira foram eleitos os três cardeais que irão ajudar o camarlengo, cardeal Kevin Joseph Farrell, na gestão das coisas ordinárias em preparação ao Conclave. Serão o arcebispo de Munique e Freising (Alemanha), cardeal Reinhard Marx, o pro-prefeito do Dicastério para a Evangelização, cardeal Luis Antônio Tagle, e o prefeito do Supremo Tribunal da Sinatura Apostólica, cardeal Dominique Mamberti.

Tempo de diálogo e escuta

O fato da data de início do Conclave para dia 7 de maio, poderia ter sido escolhida uma data entre 5 e 10 de maio, pode ser visto como sinal do desejo dos cardeais de ter mais tempo de diálogo e escuta, em vista de poder escolher um Papa que irá assumir o Papado número 267 na história da Igreja católica. Amanhã, 9 horas, será realizada uma nova congregação geral, que iniciará com uma pregação do abade da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, dom Donato Ogliari.

As congregações gerais serão encerradas na terça-feira, 6 de maio, exceto 1º de maio e domingo dia 4. Os trabalhos iniciam 9 horas da manhã e encerram 13 horas da tarde, no horário de Roma, seis horas a menos em Manaus.

Luis Miguel Modino

Cardeal Steiner agradece no velório do Papa por “nos despertar para com o cuidado para com a Amazônia”

Uma mistura de sentimentos está presente no coração passando diante do corpo daquele que tem sido uma luz para a humanidade e para a grande maioria dos 1,4 bilhão de católicos do mundo nos últimos 12 anos, embora a multidão de pessoas presentes exija que isso seja feito rapidamente.

Reconhecimento de todo o mundo

O velório de Papa Francisco, que será sepultado neste sábado na Basílica de Santa Maria Maggiore, após o funeral na Praça de São Pedro, é um sinal de reconhecimento por parte das pessoas de todo o mundo. Mas também pelas mais de 200 delegações oficiais que viajaram a Roma para mostrar suas condolências.

De uma dessas periferias veio o arcebispo de Manaus, o cardeal Leonardo Ulrich Steiner. A Amazônia sempre ocupou um lugar especial no coração do último pontífice. Lembro-me da última vez que tive a oportunidade de cumprimentá-lo brevemente, quando lhe contei que minha missão era ser pároco na Área Missionária de San José do Rio Negro, na arquidiocese de Manaus, composta por 26 comunidades indígenas e ribeirinhas. Francisco respondeu: “Que missão linda!

Muito a agradecer a Papa Francisco

Um carinho que também está presente naqueles que vivem nessas e em tantas outras comunidades Amazônia afora, que pediram nesses dias que eu também levasse suas vidas para o velório do Papa. Um sentimento de gratidão que o Cardeal Steiner trouxe para Roma. Logo após rezar diante do caixão de Francisco, instalado na Basílica de São Pedro, o presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte 1) ressaltou que “nós da Amazônia temos muito a agradecer a Papa Francisco por de novo trazer a Amazônia para a discussão, mas especialmente nos despertar para com o cuidado para com a Amazônia”.

O arcebispo de Manaus ressaltou que “não só a região amazônica, mas os povos que ali vivem, as culturas”. Segundo o Cardeal Steiner, “tudo isso nós somos muito gratos ao Papa Francisco por nos ter ajudado a repensar e ajudar a incentivar as nossas comunidades a viverem a sua fé nessa realidade da Amazônia”, concluindo suas breves palavras com um “muito obrigado, Papa Francisco”.

O Cardeal Steiner é alguém profundamente alinhado com o Magistério do Papa Francisco, tendo promovido de várias maneiras a sinodalidade, o cuidado com os pobres, especialmente a população em situação de rua, o cuidado com a casa comum, o protagonismo das mulheres e a defesa dos povos indígenas. Soma-se a isso sua grande devoção, como franciscano, a Francisco de Assis, incentivando constantemente a descoberta da presença de Deus em todas as criaturas, sentimento presente no conceito de ecologia integral, promovido pelo Papa argentino.

Gratidão do povo brasileiro

Esse sentimento de gratidão a Francisco também está muito presente nos dias de hoje entre o povo brasileiro. Ele é um Papa muito querido no Brasil, a ponto de, em uma ocasião, um cardeal brasileiro ter dito a Papa Francisco que ele havia conseguido realizar um milagre durante sua vida, que os brasileiros gostassem de um argentino, fazendo o Papa dar uma gargalhada.

Uma grande delegação do governo brasileiro prestou suas condolências diante do caixão do Papa, encabeçada pelo presidente Lula, um admirador declarado do pontífice, sua esposa Janja, os presidentes do Congresso, do Senado, do Supremo Tribunal Federal, ministros, parlamentares e a ex-presidente Dilma, que admitiu, como também era visível em Lula, que estava abalada com a morte de Francisco.

Padres e lideranças indígenas destacam significado do Jubileu 2025 em Roraima

Padres e lideranças indígenas destacam significado do Jubileu 2025 em Roraima

O evento segue até este sábado, na Raposa Serra do Sol.

Padres e lideranças indígenas destacam significado do Jubileu 2025 em Roraima
Pablo Sérgio bezerra – Rádio Monte Roraima

Diocese de Roraima realiza, pela primeira vez, o Jubileu dos Povos Indígenas. A celebração, que acontece em meio às comunidades originárias do estado, propõe um ano de renovação da fé, denúncia das injustiças e valorização da caminhada histórica dos povos indígenas ao lado da Igreja Católica.

Segundo o padre Mattia, da Pastoral Indigenista, o Jubileu é um tempo de graça que convida à reflexão e à ação. “Não é possível pedir perdão a Deus sem sentir as dores do mundo. E entre essas dores, está a negação dos direitos dos povos originários, que há séculos lutam pelo respeito à sua vida e à sua terra”, destacou.

Para ele, o Jubileu é um sinal de esperança, que deve acender o olhar da sociedade para as feridas abertas pelas desigualdades. “O marco temporal é só um dos muitos desafios enfrentados. Também há carência de saúde, educação e oportunidades para a juventude e as mulheres indígenas. O Jubileu é como um refletor que a Diocese acende sobre essa realidade, reafirmando o compromisso com a vida e os direitos fundamentais.”

A celebração também é um gesto de proximidade da Igreja com os povos indígenas, como reforça o missionário padre Joseph Mugerwa, que atua há oito anos na região do Surumu, Raposa Serra do Sol. “Para as comunidades, o Jubileu não é apenas uma festa da Igreja, é a festa dos povos indígenas. É um momento de lembrar que Deus sempre esteve ao lado deles, e que a Igreja nunca os abandonou nessa caminhada.”

Padre Joseph destaca a expectativa e a mobilização nas diferentes regiões do estado: “Amajari, Serra da Lua, São Marcos, Tabaio, Boa Vista… todas estão se organizando com muito entusiasmo. É um marco histórico, especialmente porque também teremos a ordenação de um diácono indígena. Para o povo, isso representa uma grande conquista, ver um deles assumindo um papel dentro da Igreja.”

 Na foto estão: De azul, o missionário padre Joseph Mugerwa, que atua há oito anos na região do Surumu
padre Paulo da Conceição Fernando Mzé, Superior Regional dos Missionários da Consolata
no Brasil, e a jornalista Dennefer Costa.

 

padre Paulo da Conceição Fernando Mzé, Superior Regional dos Missionários da Consolata no Brasil, também veio de São Paulo para participar do Jubileu. Ele acompanha de perto o trabalho dos missionários na Amazônia, onde a congregação atua há 76 anos. “A nossa presença missionária sempre teve como prioridade os povos indígenas. Celebrar esse Jubileu é reconhecer a importância desse povo para a história do Brasil e da Igreja.”

O Superior reforça que sua visita é também uma forma de animação e escuta dos missionários e das comunidades. “Estamos aqui para afirmar que a missão da Igreja precisa ser feita com e para os povos indígenas. Esse Jubileu é um testemunho da fé viva dessas comunidades, da resistência e da esperança que brota do coração da Amazônia.”

Gilmara Barbosa, representante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), destacou a importância simbólica e pastoral desse momento:
“Celebrar os 300 anos de evangelização com o protagonismo indígena é reconhecer a história viva e a fé encarnada nos povos originários. É uma resposta concreta aos apelos do Papa Francisco por uma Igreja com rosto amazônico, indígena e comprometida com a justiça e a vida.”

O Jubileu, que vem da palavra hebraica “Yobel” — um instrumento antigo que anunciava um tempo de libertação e graça —, é, segundo os missionários, um convite à conversão da sociedade diante das feridas causadas pela omissão e pela violência histórica contra os povos originários.

A expectativa é que o evento fortaleça os laços entre a Igreja e os povos indígenas, e ecoe uma mensagem clara: a vida, a cultura e os direitos dos povos indígenas devem ser respeitados e celebrados.

 FONTE/CRÉDITOS: Dennefer Costa – Rádio Monte Roraima

Jubileu dos Povos Indígenas começa com seminário que resgata a memória e reafirma compromisso da Igreja de Roraima

Jubileu dos Povos Indígenas começa com seminário que resgata a memória e reafirma compromisso da Igreja de Roraima

O evento está ocorrendo no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, reunindo fiéis indígenas e não indígenas.

Jubileu dos Povos Indígenas começa com seminário que resgata a memória e reafirma compromisso da Igreja de Roraima

Pablo Sérgio bezerra

Foi dado início nesta sexta-feira, 25 de abril, ao Jubileu dos Povos Indígenas em Roraima. A abertura foi marcada pelo seminário “Memória e compromisso da Igreja de Roraima com os povos indígenas”, realizado no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol. O evento é um marco no calendário da Diocese de Roraima e reúne representantes de diversas etnias, missionários, religiosas e religiosas, lideranças tradicionais e convidados de várias regiões do Brasil.

Foto: Pablo Sérgio bezerra – Rádio Monte Roraima FM 

Com o tema “Somos peregrinos e peregrinas da esperança”, o jubileu celebra os 300 anos de evangelização da Igreja no Brasil, mas com um olhar especial: a aliança histórica entre os povos indígenas e a Igreja Católica, construída ao longo de décadas por meio da resistência, da fé e da solidariedade.

Logo pela manhã, o bispo de Roraima e presidente da REPAM-Brasil, Dom Evaristo Spengler, deu as boas-vindas aos participantes, destacando a importância simbólica e espiritual da celebração.“Estamos muito felizes por celebrar esse jubileu. A aliança dos povos indígenas com a Igreja é uma aliança histórica que sempre produziu frutos, como a demarcação e a homologação de terras. Estamos lembrando aqui uma caminhada de fé que fortalece, une e nos dá força para continuar lutando pelos direitos dos povos indígenas”,disse.

O evento também contou com a presença de Padre Ronaldo, missionário vindo de São Paulo, e do Padre Pedro, reitor do Seminário Arquidiocesano de Manaus, que destacou o impacto espiritual da convivência com os povos originários “ Sinto aqui a grandeza da vida, da espiritualidade, da união e da fé desse povo. É algo bonito de se ver e de sentir”, completou Dom Evaristo.

Foto: Pablo Sérgio bezerra – Rádio Monte Roraima FM 

A professora Márcia Maria, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM Brasil), ressaltou o caráter inédito da celebração. “É uma alegria acompanhar esse momento tão importante. Me parece ser o único jubileu da Igreja em nível nacional que eleva os povos indígenas como protagonistas. A Diocese de Roraima historicamente assumiu a causa indígena como missão. Esse jubileu é um marco para toda a Igreja”, relatou.

Já o coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Amarildo Macuxi, destacou o simbolismo do mês de abril para os povos indígenas. “Abril é o mês da resistência. Estamos aqui celebrando esse jubileu com muita alegria, com a presença de várias comunidades e missionários. A história da evangelização em nossos territórios começou em 1915, e desde então formou-se uma aliança entre as lideranças indígenas e a Igreja”,disse.

O seminário se estende ao longo do dia com mesas-redondas e debates, preparando o espírito dos participantes para os demais dias do Jubileu, que segue com atividades litúrgicas, culturais e celebrações até o fim de semana.

A celebração conta ainda com a chegada de representantes da CRB Nacional (Conferência dos Religiosos do Brasil), da FUNAI e de outras instituições ligadas à causa indígena, confirmando o alcance e a relevância nacional do evento.

Este Jubileu não apenas recorda o passado, mas também lança esperança sobre o futuro. Um futuro onde a fé e a luta dos povos originários seguem caminhando juntas, alimentadas pela espiritualidade, pelo compromisso e pela justiça.

 FONTE/CRÉDITOS: Filipe Gustavo

Surumu celebrará Jubileu dos Povos Indígenas e reafirma papel histórico na luta por direitos

Surumu celebrará Jubileu dos Povos Indígenas e reafirma papel histórico na luta por direitos

Local onde nasceram as primeiras assembleias indígenas de Roraima recebe encontro que resgata memória, e resistência dos povos da Raposa Serra do Sol.

Surumu celebrará Jubileu dos Povos Indígenas e reafirma papel histórico na luta por direitos
Foto Lucas Rosseti – Rádio Monte Roraima fm

A Terra Indígena Raposa Serra do Sol, palco de uma das mais emblemáticas lutas pela demarcação de terras no Brasil, volta a ser centro de mobilização, memória e espiritualidade com a realização do Jubileu dos Povos Indígenas neste fim de semana. O evento ocorrerá na região do Surumu, onde a caminhada pela autonomia e pelos direitos dos povos originários de Roraima teve início ainda na década de 1970.

Mais que uma celebração, o Jubileu marca um reencontro com a história e com os princípios que nortearam as primeiras assembleias dos tuxauas, líderes tradicionais que, enfrentando violência e invasões, decidiram se unir para proteger suas terras, culturas e modos de vida. Foi justamente em uma dessas assembleias, realizada na comunidade Barro, em 1971, que germinou a semente de uma grande organização indígena.

Padre Giorgio Dal Bem, missionário italiano que chegou à Raposa Serra do Sol em 1972 e fundou a Missão Maturuca, destaca a profundidade histórica e espiritual deste momento:


“A partir da Palavra, passou-se a um projeto de Deus, e essa jornada foi muito frutífera. Em 1977, houve uma reunião histórica aqui chamada de ‘ou vai ou racha’, na qual algumas lideranças do povo decidiram abandonar a bebida e a desunião, buscando garantir a vida do povo indígena e da comunidade. Desde então, desenvolveram muitos projetos ao longo dessa história.”

Esse encontro, conhecido como a Assembleia do Vai ou Racha, ocorreu na comunidade indígena Maturuca, e representou um divisor de águas. Além de romper com o uso de bebidas alcoólicas, que fragilizavam as comunidades, as lideranças decidiram fortalecer a unidade entre as regiões. Dessa decisão nasceram os conselhos regionais — estruturas que permitiram maior articulação e resistência frente à exploração ilegal das terras por fazendeiros, garimpeiros e outros invasores.

O Conselho Indígena de Roraima (CIR), hoje referência na luta pelos direitos indígenas, teve suas raízes lançadas nesses encontros. A formalização do CIR ocorreu em 1990, logo após a transformação de Roraima em estado, mas a trajetória de organização coletiva vinha de duas décadas antes. Um dos primeiros conselheiros regionais foi o tuxaua Gabriel Macuxi, da região Raposa.

A terra Raposa Serra do Sol foi por décadas alvo de disputas e violência. A luta pelo reconhecimento e pela demarcação durou mais de 30 anos, com confrontos que deixaram marcas profundas nas comunidades. Muitos indígenas foram expulsos, outros assassinados, mas a resistência permaneceu firme. Em 2005, a terra foi finalmente homologada, tornando-se um marco jurídico e político para os direitos indígenas no Brasil.

Projetos como “Uma vaca para o índio”, lançado em 1980 para incentivar a criação comunitária de gado, também surgiram nesse contexto de reconstrução e fortalecimento das comunidades. O projeto permanece até hoje como símbolo da autonomia econômica indígena.

Além da luta pela terra, o Jubileu celebra também conquistas em áreas essenciais como saúde e educação. A criação do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, a formação de professores e agentes de saúde indígena, e a implantação do Grupo de Proteção e Vigilância Territorial (GPVIT) são frutos desse longo percurso de resistência.

O evento deste fim de semana é uma continuidade do Jubileu de Ouro da Missão Maturuca, celebrado em 2023 com grandes momentos de espiritualidade, como a romaria com a Cruz Peregrina, a missa solene com Crisma e homenagens às lideranças e missionários que caminharam junto aos povos. Na ocasião, Dom Evaristo Pascoal Spengler destacou: “Essa missão é um testemunho de compromisso e transformação.”

 

 FONTE/CRÉDITOS: Kayla Silva sob supervisão de Dennefer Honorato

Diocese de Roraima celebra Jubileu dos Povos Indígenas em evento histórico no Surumu

Diocese de Roraima celebra Jubileu dos Povos Indígenas em evento histórico no Surumu

Encontro marca 300 anos de evangelização com seminário, peregrinação e ordenação diaconal de jovem indígena.

Diocese de Roraima celebra Jubileu dos Povos Indígenas em evento histórico no Surumu
Fotos: Lucas Rossetti – Rádio Monte Roraima Fm

Nos dias 25 e 26 de abril de 2025, a Diocese de Roraima realizará o Jubileu dos Povos Indígenas, no Centro Indígena de Formação e Cultura (Surumu), na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, território marcado pela resistência e pela história de luta dos povos originários.

 O evento, que integra as comemorações pelos 300 anos de evangelização na região, também celebra o Jubileu da Esperança — convocado pelo Papa Francisco (In Memoriam) para 2025. Em meio à dor da perda do Pontífice, que dedicou seu pontificado aos pobres e marginalizados e à defesa dos povos indígenas, a Diocese optou por manter a programação como forma de honrar seu legado de esperança e compromisso com os mais vulneráveis.

Sob o tema “Somos peregrinos e peregrinas da esperança”, a programação inclui reflexões, testemunhos, celebrações culturais e uma grande peregrinação, culminando com a Ordenação Diaconal do seminarista indígena Djavan André da Silva, um jovem Macuxi, se tornará o primeiro diácono de sua etnia. O momento celebra a harmonia entre a fé católica e as culturas tradicionais

Fotos: Lucas Rossetti – Rádio Monte Roraima Fm

“Surumu é um lugar sagrado de luta e esperança. Aqui, reafirmamos nosso compromisso com os povos originários, especialmente diante das ameaças do garimpo ilegal e do Marco Temporal”, destacou o bispo de Roraima, dom Evaristo Pascoal Spengler.

  Dom Leonardo Steiner, presidente do CIMI, dirigiu-se afetuosamente aos presentes, saudando especialmente os irmãos e irmãs indígenas. “Queridos irmãos e queridas irmãs, queridos irmãos indígenas, queridas irmãs indígenas, querido irmão Dom Evaristo.   Quantas lutas, quantas mortes, quantas lutas e quantas conquistas, porque viveram da esperança. A esperança fortifica o coração de cada um, de cada uma, e que essa luta nós possamos fazer juntos, para que a dignidade, a cultura, a fé de cada um, de cada uma, de cada povo, possa ser levada em consideração e sejam respeitadas. Deus abençoe a cada um. Vamos viver esse ano jubilar na esperança”, finalizou.

Programação

25 de abril – Sexta-feira

08h às 17h – Seminário “Memória e compromisso da Igreja de Roraima com

os povos indígenas”

Um espaço de escuta, partilha e análise sobre a caminhada da Igreja junto aos povos indígenas, reconhecendo lutas, avanços e desafios, à luz do Evangelho e da missão eclesial na Amazônia.

26 de abril – Sábado

08h30 – Concentração no Aeroporto de Surumu

09h00 – Peregrinação rumo ao Centro Indígena de Formação

Celebração Eucarística com a Ordenação Diaconal de Djavan André da Silva

 FONTE/CRÉDITOS: Dennefer Honorato – Rádio Monte Roraima fm